segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Não se esqueçam da Tailândia


Você lembra da Tailândia?

Com licença. Vou ajudar a refrescar a nossa memória.
A Tailândia é um pais onde os líderes da oposição estão presos ou exilados apesarem de terem vencido as últimas quatro eleições. Onde o último primeiro-ministro eleito foi derrubado por um golpe militar. Onde o primeiro-ministro eleito antes desse também foi derrubado por um golpe militar. Onde o povo, há anos, vem protestando regularmente nas ruas. Onde mais de oitenta manifestantes pró-democracia foram mortos pela polícia em 2010. Onde vários meios de comunicação considerados "opositores" foram fechados. E onde o ditador é rotulado como "lider moderado" (o que talvez tenha alguma relação com o fato dele ser considerado pró-ocidente, ou como diz o Financial Times "buisness friendly"). Talvez você não tenha ouvido falar dessas coisas pois a Tailândia não é um país que frequenta os nossos noticiários, o que pode lhe passar a idéia de que a se trata de um país sem importância.

Pois faço esse apelo: não se esqueçam da Tailândia.

Neste momento de levante mundial pela democracia, protestos populares estão ressurgindo nesse país, frente a indiferença e o cinismo de nossa imprensa. A direita local, designada camisa amarela, tem feito "demonstrações de força" na capital reunindo cerca 2 mil pessoas e conseguindo assim algumas poucas manchetes. A esquerda camisa vermelha, por sua vez, tem juntado, há semanas, cerca de até 30 mil (isso mesmo, quinze vezes mais) por protesto e mesmo assim permanece quase totalmente ignorada. O padrão foi estabelecido pelos grandes veículos. Desde que pipocou essa nova onda de instabilidade no país, A folha de são paulo dedicou apenas três reportagens para o assunto. Neste texto abaixo se referem apenas ao "protesto" dos camisas amarelas.

11/02/2011 - 21h22
Tailandeses pedem renúncia do chefe do governo;

DA EFE

Milhares de seguidores da Aliança do Povo para a Democracia, conhecidos por "camisas amarelas", aumentaram a pressão sobre o governo tailandês pedindo nas ruas a renúncia do primeiro-ministro, Abhisit Vejjajiva.

Após mais de duas semanas acampados nas imediações da sede do Governo em Bangcoc, os "camisas amarelas" acusaram Vejjajiva de não defender os interesses da Tailândia frente ao vizinho Camboja.


A constrangedora superficialidade com que tratam o assunto confunde muito mais que explica. Afinal de contas o ditador não foi colocado ali exatamente pelos "camisas amarelas"? Que interesses da Tailândia frente ao Camboja são esses? Estão acampados a duas semanas em frente a sede de governo e só agora aparece uma nota no jornal? Pois então....

Vejam essa outra reportagem do bem menos conhecido "Paraná Online".

25/01/2011 às 14:50:05 - Atualizado em 25/01/2011 às 17:03:04

Nacionalistas fazem novo protesto na Tailândia

Cerca de 2 mil nacionalistas "Camisas Amarelas" realizaram um protesto em Bangcoc hoje contra o modo como o governo lida com uma disputa territorial com o vizinho Camboja. Dois dias antes, houve um grande protesto dos rivais "Camisas Vermelhas".

Os "Camisas Amarelas" acusam o governo do primeiro-ministro Abhisit Vejjajiva de não conseguir defender o território em uma disputa com o Camboja. "Nós fizemos sugestões ao governo, mas eles não agiram, então não temos outra escolha", disse uma liderança.

A questão das fronteiras ganhou proeminência após sete tailandeses serem presos no Camboja em dezembro por entrarem ilegalmente em uma zona disputada, incluindo um ativista dos "Camisas Amarelas" que permanece detido no Camboja, acusado de espionagem. O grupo, conhecido oficialmente como Aliança do Povo pela Democracia, costumava ser próximo de Abhisit, mas as relações têm piorado.

Em 2008, o grupo fez grandes manifestações, fechando dois aeroportos de Bangcoc e deixando 300 mil pessoas sem voar. Os protestos geraram um grande custo para a economia local. Já os "Camisas Vermelhas" protestam por eleições antecipadas. No último domingo, eles atraíram 27 mil pessoas para uma manifestação. As informações são da Dow Jones


Bem... ao menos os camisas vermelhas foram citados. Tudo bem que o protesto de 27 mil, que pede realização de eleições livres e democráticas, foi relegado à última linha e ignorado na manchete. Um dado interessante é uma estranha disputa de fronteira que apareceu de uma hora para a outra entre a Tailândia e o Camboja. Vou voltar a esse assunto mais adiante. Por enquanto vamos nos concentrar na cobertura dos protestos por democracia. Ou mais precisamente a pouca cobertura dos protestos por democracia.

Muitos jornais têm dado esse tipo de editorialização, até porque reproduzem uma pauta internacional que segue claramente essa linha. Entretanto creio que nada pode ser pior do que tem feito, em uma base regular, a folha. O nosso decadente jornal paulistano estabeleceu um padrão inaceitável de cobertura para a questão tailandesa: numa das poucas reportagens em que falaram dos recentes protestos dos "camisas vermelhas" referem-se aos seus líderes presos da seguinte maneira: "As autoridades mantêm 17 camisas vermelhas presos, acusados de terrorismo, desde que os distúrbios ocorridos em maio do ano passado, após mais de dois meses de protestos, deixaram 91 mortos e cerca de 1.800 feridos". É de um cinismo assustador. Pela maneira como relatam o ocorrido, eles dão a entender que foram os camisas vermelhas que mataram estas vítimas, quando todos sabem que os mortos eram, basicamente, eles mesmos camisas vermelhas assassinados à bala pela aparelhagem de repressão da ditadura - exército e polícia. O jornal consegue a proeza de inverter a relação assassino-vítima. Agora os mortos são culpadas por se deixarem matar.

Uma postura igualmente tendenciosa (pra não dizer coisa bem pior) aparece nessa rara notícia da GloboNews sobre a Tailândia de 9 de janeiro desse ano. Diz a reporter "No ano passado cerca de 90 pessoas foram mortas nos protestos de rua. A promessa dos organizadores camisas vermelhas para 2011 é de uma oposição menos violenta, que evite o derramamento de sangue". Novamente o mesmo padrão: a culpa das mortes é daqueles que levaram os tiros. E ela não para por aí. Em seguida a reporter emenda tranquilamente "Cerca de 1000 policiais foram deslocados para garantir segurança para o protesto". Da pra acreditar? Os lobos estão protegendo as perigosas ovelhas.

Como se responde a esse tipo de absurdo?

Pois olhem essa foto abaixo.

Olhem bem.

Este homem foi um desses manifestantes violentos. Seu ato de extrema violência foi deixar a sua cabeça ficar na trajetória de uma bala.

O nome dele era Khattiya Sawasdiphol. A foto (que nem a folha nem a GloboNews se preocupam em publicar) foi tirado logo após ele - que era um dos principais líderes dos "camisas vermelhas" e considerado por muitos como o "cérebro" do movimento - ser atingido por um tiro no cérebro enquanto falava com jornalistas. Apenas mais um dos mais de oitenta mortos pela repressão nos protestos de 2010.

Eu pergunto: até quando?

Não, meus amigos. Não se esqueçam da Tailândia. Por favor.
Até porque o teatro de absurdos ainda não terminou, e pode ficar ainda pior. Sim, porque este pais agora nos trás notícias tristemente novas que eu citei anteriormente.

Pressionado há anos pela população, o governo golpista havia prometido realizar eleições ainda nesse ano de 2011. Segundo todos os analistas, depois de quatro vitórias seguidas, e de toda a repercussão da repressão recente, uma nova vitória eleitoral dos camisas vermelhas é dado como quase certa. Pois bem no momento em que os protestos estão voltando e as prometidas eleições vão se aproximando eis que uma estranha guerra aparece nos noticiários.

Relatos falam de uma suposta disputa de fronteiras com o vizinho Camboja, e confrontos entre os dois exércitos que deixaram dezenas de soldados mortos.

Eu não sei direito como funciona essa rivalidade Thai-Khmer que parece existir entre os dois países, e como isso afeta a politica interna da Tailândia, mas o timing deste conflito é no mínimo suspeito. Me parece incrivelmente conveniente aos golpistas arranjarem uma guerra externa e desviar assim o foco da dissidência interna. Eu não tenho dados para confirmar ou negar, mas não posso deixar de levantar essas desconfianças, até porque todo o palco de lutas é um território reduzidíssimo, de importância meramente simbólica, onde está localizado um templo e um vilarejo. Nada mais. As notícias veiculadas não apontam claramente o país agressor, sendo que os dois lados - obviamente - se acusam mutuamente, mas sabendo que o templo hoje está em território Cambojano, o lógico é supor que a iniciativa do combate é Tailandês ja que Camboja não tem nada a ganhar. Tudo indica que se trata de uma guerra teatral, falsa como o governo que a provocou. O objetivo não é outro senão mentir e manipular. De uma tacada só as manifestações são ofuscadas por uma pauta muito mais "interessante" para a mídia internacional, e o governo tem a oportunidade de inibir a dissidência interna ao inflar o nacionalismo (onde ja vimos isso antes?).

De qualquer modo não estou lá na Tailândia para analisar mais profundamente. O que me revolta é que também a nossa imprensa não está.

Vejamos o pouco que foi veiculado na folha via a agência france press:

06/02/2011 - 19h32

Após confrontos com a Tailândia, Camboja pede ajuda à ONU

DA FRANCE PRESSE

Novos confrontos foram registrados neste domingo entre Camboja e Tailândia, pelo terceiro dia consecutivo e apesar de um cessar-fogo anunciado na véspera, perto de um templo reivindicado por ambas as partes em uma região de fronteira, segundo militares de ambos os países.

Em uma declaração transmitida pela rede de televisão estatal, o primeiro-ministro do Camboja, Hun Sen, recorreu neste domingo à ONU (Organização das Nações Unidas) para ajudar a "cessar a agressão" tailandesa que "ameaça gravemente a paz e a estabilidade na região".

Por sua vez, o porta-voz do governo da Tailândia, Panitan Wattanayagorn, garantiu que o Camboja começou a atacar. "O que fazemos é proteger nosso país, nossa soberania", disse.


Pheara/Reuters
Soldados do Camboja assumem posição em tanques estacionados perto do templo de Preah Vihear, na fronteira com a Tailândia

Um país culpa o outro pelos confrontos, que começaram na sexta-feira.

O governo do Camboja acusou, por sua vez, a artilharia tailandesa de danificar o templo Khmer de Preah Vihear, declarado patrimônio mundial pela Unesco (agência cultura da ONU) e que os dois países reivindicam.

"Uma ala de nosso templo de Preah Vihear foi derrubada", afirmou uma autoridade militar citada em um comunicado do governo.

A fronteira entre Camboja e Tailândia nunca foi totalmente delimitada, o que alimenta conflitos que geraram vários incidentes armados com vítimas mortais em 2008 e 2009.

Nesta ocasião, a disputa centrou-se em torno do templo de Preah Vihear, ruínas do século 11 cuja soberania corresponde ao Camboja, segundo uma decisão da Corte Internacional de Justiça (CIJ) de 1962.

Mas os tailandeses controlam seus principais acessos e muitos setores não foram delimitados, como, por exemplo, uma região de 4,6 quilômetros quadrados adjacente ao templo.

Nos confrontos dos dois primeiros dias, os mais violentos desde 2008, morreram pelo menos cinco pessoas: um soldado e um civil tailandeses e dois soldados e um civil cambojanos.

Mas meios de comunicação dos dois países afirmam que o balanço é muito maior: os jornais da Tailândia falam de 64 soldados cambojanos mortos, enquanto no Camboja jornais afirmam que há 30 vítimas mortais entre as forças tailandesas.



Olhando essa notícia fica claro que a imprensa ocidental não está cumprindo sua obrigação de apurar criticamente as causas do conflito. A reportagem pouco contextualiza a guerra, e não traça a relação óbvia com os eventos internos da Tailândia. Vale a penas notar que, embora a Tailândia reinvindica este território há décadas, os problemas de fronteira só tiveram início em 2008, coincidentemente ou não na época do início da crise política na Tailândia. As possíveis causas não são analisadas em absoluto e o repórter se limita a reproduzir os comunicados oficiais das partes; a apresentar alguns dados facilmente encontrados no Google ou na Wikipedia; e a apresentar um resumo da contagem de cadáveres feito pela imprensa dos dois países. Será que isso é obra de um reporter preguiçoso? Não. Isso se chama "oficialismo".

Vamos dar uma olhadinha melhor no palco dos combates. O tal templo de Preah Vihear fica num morro no meio de uma planície e a ONU já declarou categoricamente que pertence ao Camboja. Historicamente o templo é uma relíquia da cultura Khmer do século 11, o que só fortalece a posição Cambojana, pais herdeiro dos Khmers. O fato é que o ataque Tailandês é uma flagrante quebra das leis internacionais. Se trata de uma invasão pura e simples. O objetivo é claramente político, e a morte de gente inocente - como sempre - é absolutamente inaceitável. Onde estão os gritos de indignação?

Eu sei que a humanidade vem fazendo esse tipo de coisa há milênios mas eu ainda não consigo engolir isso. Para mim me parece tão sinistro que os comandantes militares tailandeses estejam dispostos a matar dezenas, ou até centenas, de seus próprios soldados e do "inimigo", com o argumento mentiroso de defender um território de ridículos quatro quilômetros quadrados, só para satisfazer suas vaidades e sede por poder.

Uma vergonha. Vergonha pelo que está acontecendo, e vergonha pelo que não está sendo dito em nossa mídia. Vergonha por fazer parte da humanidade.

E pensar que tudo isso acontece num país de histórica maioria budista, onde o povo é adepto da filosofia da não-violência. Um país que não é pequeno. Sua população de cerca de 65 milhões de pessoas é semelhante em tamanho ao do Egito ou do Irã (com a diferença óbvia de não possuir petróleo). Se trata verdadeiramente de um pais lindo, de praias oníricas que atraem milhões de turistas do mundo inteiro, e que guarda uma cultura riquíssima. Um país, inclusive, que se orgulha de nunca ter sido colonizado pelas forças estrangeiras ocidentais (a única do sudeste asiático). Como pode ser que tudo isso esteja acontecendo? Acho tão difícil de aceitar. Sei lá........

Assim como ocorre no outro pais vizinho, Mianmar, os monges budistas estão claramente contrários ao regime autoritário. Embora seu código de conduta pacifista os proíbe de enfrentar os poderes do estado, os monges participaram de todas as manifestações dos "camisas vermelhas" em grandes números. É tão esquisito pensar que o ocidente se interesse tanto pelo Dalai Lama e os seus 5 milhões de seguidores espirituais, e mostre tanto desinteresse pelos 60 milhões de budistas tailandeses, e outros tantos milhões em Mianmá, ou no Nepal. Ninguém na mídia nunca se lembra dos monges budistas que deram a vida para protestar contra a intervenção militar ocidental no Vietnã, como este de uma foto tirada em 1963. Com todo respeito ao Dalai Lama, que é um homem muito inteligente, mas tudo é tão distorcido.

Essas coisas me entristessem, e de um modo estranho, pois me fazem querer que outros sintam essa mesma tristeza estranha. Sinto que preciso falar para as pessoas desses erros. Preciso fazer com que os outros se revoltem junto comigo. Não posso aceitar a indiferença perante a morte contínua de inocentes. Não posso aceitar o cinismo como linha editorial, muito menos como política de estado.

O observador mais atento notará que as notícias da folha citadas aqui neste texto foram publicadas já há alguns dias. Por que isso? Por que não usar notícias mais recentes? Simples. Porque nos últimos dias nenhuma notícia sobre os protestos na Tailândia ou dos conflitos com o Camboja foi veiculada no portal da Folha de São Paulo. O assunto, por mais explosivo que possa ser, simplesmente não mais veio à tona.

Não pense, porém, que nada aconteceu lá. Pode ter certeza que está acontecendo de tudo. Estão tentando é fazer você esquecer da Tailândia. Fazer você achar que a Tailândia não importa. Está em curso um processo de criação do esquecimento. A ignorância hoje não é mais resultado da dificuldade de acesso às informações. Ela é produzida intencionalmente desviando se os olhares delas.
Os poderosos sabem que é preciso nos privar da informação, mas não mais via censura. Não porque são contra a censura, mas simplesmente porque não é mais possível censurar (diga se de passagem, uma grande conquista recente da tecnologia). Entretanto ainda é perfeitamente possivel limitar, coibir, manipular, conduzir, controlar e distrair. É o que tem sido feito.

Repito: ignorância, hoje, precisa ser meticulosamente fabricada.

Pois observe que se nada foi veiculado sobre o conflito nesse país nos últimos dias, isso que não quer dizer que nenhuma notícia da Tailândia chegou a ser publicada. Hoje, enquanto eu revisava este texto essa inacreditável notícia foi dada pelo jornal paulistano no seu caderno "mundo".

15/02/2011 - 01h26

Casal tailandês se beija por mais de 46 horas e bate recorde mundial

DA EFE

Após 46 horas, 24 minutos e nove segundos se beijando, um casal tailandês bateu nesta terça-feira o recorde mundial da "modalidade" em uma maratona por ocasião do dia de São Valentim, informou a imprensa local.

(...)



E eu me pergunto. Que tipo de merda é essa?

Respondo. Esse é o tipo de merda que eles usam pra nos fazer esquecer daquilo que devemos esquecer. Sim. "Tudo vai bem na Tailândia. Estão até batendo récorde de beijo. Esqueça a Tailândia. Eles são bobos."

Eu acredito que, por agora, você leitor ou leitora, em alguns momentos de sua leitura, pensou "mas porque Tailândia? O que que eu quero saber sobre a Tailândia? Não tenho nenhum amigo tailandes, não vejo filmes feitos na Tailândia. Não conheço nenhuma pessoa famosa Tailandesa. Nossas culturas são totalmente diferentes. Por que que esse cara se preocupa tanto com esse país lá longe? Será que ele é de alguma comunidade Tailandesa no Brasil?". Bem... não eu não tenho nenhum amigo tailandês - ainda - nem nunca viajei para lá, assim como você (quem sabe um dia). Mas, pessoalmente, eu considero essa uma indagação justa. Concordo que as coisas que acontecem em nossa vizinhança tem mais relação com a nossa vida que a que ocorre em outras. Nossa "aldeia" já é cheia de problemas. Nossa própria cultura já é complexa o suficiente para nos ocupar o pensamento e as paixões. Mas eu diria que a questão vai além e é muito mais sutil que isso. Estranhamos uma notícia sobre a Tailândia exatamente porque nunca recebemos nenhuma notícia sobre a Tailândia. Como uma cobra que morde o rabo, a falta de notícias é justificado em nosso inconsciente pela própria falta de notícias. Mas isso faz sentido?

Quero lembrar um exemplo interessante. Observem que por mais de uma década, durante os anos 60 e 70, nos convenceram que um país vizinho à Tailândia, chamado Vietnã, era sim muito importante. E os acontecimentos nesse país dominaram as manchetes e preocupações do planeta. Também não conhecíamos nenhum Vietnamita, amigo ou não, mesmo assim conseguiram monopolizar nossa atenção com esse país por anos (tanto que acabamos vendo fotos que eles nem queria que víssemos, como essas duas). O mesmo já ocorreu com um minúsculo principado chamado Kuait no início dos anos 90. Também o Panamá em 89. Também a Nicarágua no início dos anos 80. A Líbia no final dos anos 80. Mais recentemente tivemos o Tibete, o Afeganistão, o Iraque, o Irã. Todos esses ja mobilizaram incontáveis litros de tinta em nossos jornais. Por que esses lugares merecem tanta atenção então? Sim, a cobra comeu o rabo novamente e as notícias se justificavam uma às outras, mas então por que começaram a noticiar sobre estes lugares?

Aqui devemos imediatamente rejeitar a resposta simplista "porque é ali que as coisas mais interessantes aconteceram". Abandonemos a ingenuidade. Coisas interessantes acontecem em todo lugar. Massacres e matanças. Incêndios, morte, salvamento e heroísmo. Conflitos e disputas. Injustiças e reviravoltas. Se há algo que não falta no mundo é assunto. Jornalistas não encontram a notícia, eles a escolhem. Jamais um jornal ou um noticiário da TV ficaria mais curto por falta de notícias, pois há uma abundância absurda de fatos. Os jornais filtram (a palavra é exatamente essa) o que deve ou não ser noticiado. A chave está em entender como funciona esse filtro. Ele é comprometido com o que? Com as vendagens do jornal ou com os interesses dos grupos políticos que os dominam? Ou ambos?

Esta é uma pergunta sobre o qual devemos pensar muito. Não é uma pergunta trivial, mas é crucial para entendermos a nossa visão de mundo. Ou nossa falta de visão dele. Para ajudar a responder essa questão, muito ja se escreveu indo diretamente ao assunto, mas respostas deste tipo tendem a focar nos casos específicos. Queremos uma respostas geral, e para isso uma possibilidade interessante é estudarmos o lado vazio do copo. O oposto dualista desta categoria. Para entendermos por que alguns países são tão falados, uma das melhores formas é investigar por que alguns outros países são tão ignorados, pois, como no Ying-Yang, o formato de um é a fôrma do outro.

É aqui que entra a Tailândia.

A Tailândia poderia SIM estar nos nossos notíciários. Poderia ser o assunto de milhares de comentarista, de jornalistas ou blogueiros, ou de simples conversas de mesa de bar (assim como a importante disputa existente ao redor da base americana de Okinawa, no Japão, ou a histórica queda da monarquia de dois séculos no Nepal, ou a recente guerra civil da Argélia ou mesmo a do Sri Lanka, entre outras tantas não-notícias que não são veiculadas porque não são veiculadas). Bastava algumas declarações de alguns presidentes e primeiros-ministros, ou uma decisão de estado tomada dentro do pentágono. Bastava a dramatização pública de algum personagem da vida real (como ocorreu no Irã com uma tal Sakineh), ou talvez a descoberta de uma reserva gigante de petróleo perto de Bankok. (Irã, Libia, Egito e Venezuela) Não está nos noticiários por que o desinteresse por esse país é interessante aos que sabem fabricar interesse.

E se fabricar interesse é uma arte, fabricar desinteresse é uma arma.

Não esqueçam a Tailândia.



A Tailândia é um dos países mais bonitos do mundo. Tem uma cultura preciosíssima e milenar. E é um lugar cheio de seres humano como nós, que passam pela mesma busca pela felicidade que nós. Que choram e riem, cantam e dançam. Abraçam e brigam. O momento político que esse país vive hoje é extremamente semelhante ao vivido em muitos outros países como o nosso. A disputa entre camisas vermelhas e camisas amarelas tem profundas semelhanças com conflitos que vemos na nossa américa latina, e o levante popular vivido ali está em perfeita sincronia com o que ocorre muitas outras partes do mundo.

A Tailândia está sendo esquecida, porque a elite política do ocidente quer se desvencilhar da elite política dos tailandeses. Eles temem que a repressão praticada lá seja conhecida fora de suas fronteiras, e também temem que a eventual vitória vermelha lá seja conhecida e repercutida em outros paises. Eles querem é posar de bonzinhos. De defensores da liberdade. Querem se concentrar nos países com grandes reservas de petróleo, enquanto fabricam uma realidade conveniente na mente das pessoas.

Eles querem é garantir que a revolução não seja televisionada.

Pensando bem, as vezes eu tenho a impressão que o mundo inteiro é apenas um programa de televisão. Que não somos mais que personagens na mãos de um roteirista muito ruim. Que nossa vida real é uma bolha de realidade imerso em um universo de ilusões. E é aí então que me lembro do que diriam os budistas: o mundo é apenas uma ilusão.

O poder, os países, o dinheiro, a morte. Tudo não passa de ilusão. A opressão é uma ilusão. A mentira é uma ilusão. Até mesmo a Tailândia é uma ilusão. Sinto em mim que os budistas não poderiam estar mais certos. O único problema é que a própria ilusão é também uma ilusão, e é invariavelmente nessa ilusória existência em que viveremos a nossa vida. De uma forma ou de outra vamos ter que lidar com ela.

Um abraço a todos os ilusórios povos esquecidos do mundo.

Paz
Alexei









POSTUM SCRIPTUM

(19 de março de 2011)

Desde que publiquei o artigo acima, muito já aconteceu na Tailândia sem que nada fosse noticiado aqui no ocidente. O uso político da guerra com o Camboja, aparentemente, não prosperou e, sob forte pressão, a ditadura foi obrigada a começar a libertar os prisioneiros políticos. Recentemente aconteceu um momento altamente decisivo: uma moção de não-confiança foi levada ao congresso tailandês, o que poderia derrubar finalmente a ditadura. O golpista (ou líder moderado, dependendo da fonte que você consultar) sobreviveu, mas dessa vez, apesar da inegável maioria governista no congresso conseguido via golpe-de-estado, a coalizão camisa-amarela conseguiu vencer apenas por escassos 4% num apertado 52 x 48, o que "surpreendeu" os analistas. A distinta imprensa brasileira segue ignorando os acontecimentos totalmente. A única notícia que eu encontrei sobre o evento foi essa notícia da Al-jazeera.

http://english.aljazeera.net/news/asia-pacific/2011/03/20113194843541330.html

Thailand PM survives no-confidence vote

Last Modified: 19 Mar 2011 05:23
The latest no-confidence vote is the third that Abhisit has defeated since 2009 [Reuters]

Thailand's prime minister has survived a no-confidence vote brought against him by opposition politicians, ensuring his government remains in office in the run-up to what is likely to be a close election in July.

Abhisit Vejjajiva was backed by 249 politicians, or 52 per cent of the eligible house voters, in a censure motion after four days of debate marked by allegations of corruption, mismanagement and conflicts of interest levelled at him and nine of his ministers.

"The parliament has voted to give confidence to the Prime Minister and another nine ministers to stay in power," Chai Chidchob, the house speaker, said on Saturday.

It is the third censure motion that Abhisit has defeated since 2009.

The opposition, however, was seen as having little chance of winning the no-confidence vote because they lack a majority in the lower house.

During the debate, they accused Abhisit of abusing his power during deadly military operations in April and May 2010 aimed at clearing anti-government "red shirt" protesters from the streets of the capital, Bangkok.

They also blamed him for allowing a huge fire at Bangkok's CentralWorld mall - one of dozens of buildings set ablaze after the army crackdown.

The government denies this and blames protesters for the arson attacks.

Thailand remains deeply divided after more than 90 people died in those clashes between the army and demonstrators - the country's worst political violence in decades.

The red shirts plan to hold on Saturday the latest in a string of street rallies in Bangkok, which are expected to draw tens of thousands of people.

The mainly rural, working-class red shirts are broadly loyal to Thaksin Shinawatra, who was ousted as prime minister in a military coup in 2006 and lives overseas to avoid a jail sentence for corruption imposed in absentia.

They view the government as undemocratic because it came to power in 2008 in a parliamentary vote after a court ruling threw out the previous administration - an accusation Abhisit's administration strongly denies

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

CAIU




O ditador do Egito caiu.

Um a menos.

Tive a alegria de assistir ao vivo, via al-jazeera, as primeiras reações do povo, apenas alguns minutos depois da notícia emergir.
O que dizer?
Inesquecível.
Júbilo. Alívio. Euforia. Um sentimento de força e capacidade coletiva derramou-se sobre todos, inclusive muitos de nós brasileiros, sem dúvida.

Ao povo que foi às ruas e fez valer sua voz:
Estou feliz por vocês egípcios, e por todos os que vivem imersos em governos insuficientemente democráticos (ou seja, todos nós terráqueos).
Que festejem. Que se alegrem, e que jamais se esqueçam do sabor dessa vitória, pois o que queremos é que ninguém nunca mais duvide do poder do povo. Que comemorem em todas as ruas, pois as ruas são, e hão de ser sempre nossas. Que todos os brindes de hoje sejam para o povo do Egito. Que todas as bandeiras balancem.

Sim.
Mas que se mantenham alertas.

O ditador caiu, mas a democracia ainda não chegou. A luta apenas começou-se. Outros ditadores ainda estão sentados em seus tronos, e mesmo no Egito devemos lembrar que
o exército é quem está no poder. Todos nós sabemos bem a relação turbulenta que as forças armadas ja tiveram no passado com a vontade popular. Nada está definido ainda. Os poderosos trabalharão o melhor - e o pior - que puderem para dividir e enganar o povo novamente.

A batalha foi vencida, mas a verdade ainda está obscura, e a revolução só começou hoje.

Este blog permanecerá vigilante.

Paz
Alexei

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Até quando?

O Egito entrou agora numa situação perigosamente semelhante ao que vimos em Honduras 2009 e Tailândia 2010. Passado o primeiro momento em que os EUA e outras potências ocidentais foram pegas no contrapé e se viram obrigados a reconhecer a arbitrariedade do regime que sempre apoiaram, agora as forças de direita tiveram tempo para se recompor e planejar um contra-ataque baseado no cinismo. Vale a pena relembrarmos estes dois casos recentes. Em honduras começaram a espalhar a tese falsa e absurda de que o golpe - que tirou do país o presidente eleito sem qualquer direito a defesa e na mira de armas - teria sido na verdade um processo constitucional. Na Tailândia - cujo ditador pró-EUA perdeu

as últimas quatro eleições, mas venceu os últimos dois golpes de estado - a imprensa mundial veiculou repetidas reportagens descrevendo os manifestantes como arruaceiros violentos cujos protestos causaram pelo menos 88 mortes (81 dos mortos vinham dos próprios manifestantes, e quatro dos cinco policiais mortos morreram por fogo amigo acidental), num escandaloso caso de inversão da relação vítima-assassino. No final, em ambos os casos, as manifestações populares foram vencidas pelo cansaço. São duas lições tenebrosas. Agora a estratégia da direita começa a se delinear no caso do Egito. Reportagens e comentários começam a pipocar em vários meios de comunicação de que há o perigo de o Egito "cair nas mãos do fundamentalismo islâmico". Mubarak agora aparece como necessário para a realização de uma "transição pacífica para um governo moderado". Jogam, como sempre, no medo pré-fabricado do terrorismo. Vão tentar novamente vencer a vontado do povo pelo cansaço. Não vou nem postar aqui essas reportagens cínicas, pois não merecem divulgação. Não passam de mal dissimuladas manifestações de medo da democracia. Prefiro divulgar a minha vontade em ver a verdade e a vontade popular vencerem a ganância por poder e a manipulação.

No artigo abaixo posto um artigo que comenta o auxilio militar de 2 bilhões de dólares dado anualmente pelos EUA ao ditador egípcio nos últimos 30 anos.

Até quando?


Paz

Alexei







Quando as empresas preferem os ditadores à democracia

O Egito foi o segundo grande receptor de ajuda externa dos Estados Unidos durante décadas, depois de Israel (sem contar os fundos gastos nas guerras e ocupações do Iraque e Afeganistão). O regime de Mubarak recebeu cerca de 2 bilhões de dólares ao ano desde que assumiu o poder, em sua imensa maioria para as forças armadas. Onde foi parar esse dinheiro? Em geral, foi para empresas estadunidenses. O dinheiro vai para o Egito e logo volta para pagar aviões F-16, tanques M-1, motores de aviões, mísseis, pistolas e latas de gás lacrimogêneo. O artigo é de Amy Goodman.

“As pessoas levavam um cartaz que dizia ‘Para: Estados Unidos. De: Povo egípcio. Deixem de apoiar Mubarak. Ele acabou!” – dizia o twitter de meu valente colega e produtor em chefe de Democracy Now! Sharif Abdel Kouddous, desde as ruas do Cairo.


Mais de dois milhões de pessoas se manifestaram naquele dia em todo o Egito: a maioria delas inundaram a praça Tahrir, no Cairo. Tahrir, que significa “libertação” em árabe, se converteu no epicentro do que parece ser uma revolução em grande medida pacífica, espontânea e sem líderes no país mais povoado do Oriente Médio. Este incrível levante que desafio o toque de recolher militar, foi conduzido pelos jovens, que constituem a maior parte dos 80 milhões de habitantes do país. Twitter, Facebook e as mensagens de texto de telefones celulares ajudaram esta nova geração a vincular-se e organizar-se, apesar de viver há três décadas em uma ditadura apoiada pelos Estados Unidos.

Em resposta, o regime de Mubarak, com a ajuda de empresas estadunidenses e europeias, cortou o acesso à Internet e restringiu o serviço de telefonia celular, deixando o Egito em uma situação de obscuridade digital. C.W. Anderson comentou a respeito de se o que estava ocorrendo no Oriente Médio era uma espécie de revolução do Twitter: “não é a tecnologia, mas sim as pessoas que fazem a revolução”.

As pessoas nas ruas exigem democracia e autodeterminação. Sharif viajou para o Egito à noite, em um terreno incerto. As odiadas forças de segurança do Ministério do Interior e a polícia de camisas negras leais ao presidente Hosni Mubarak estavam reprimindo e matando gente, prendendo jornalistas, quebrando e confiscando câmeras. No sábado pela manhã, Sharif se dirigiu à praça Tahrir. Apesar do bloqueio da internet e das mensagens de texto, Sharif, talentoso jornalista e gênio da tecnologia, achou rapidamente uma maneira de publicar mensagens no twitter desde a praça Tahrir: “Que cena assombrosa: estão passando três tanques carregados de gente que grita “Fora Hosni Mubarak!”.

O Egito foi o segundo grande receptor de ajuda externa dos Estados Unidos durante décadas, depois de Israel (sem contar os fundos gastos nas guerras e ocupações do Iraque e Afeganistão). O regime de Mubarak recebeu cerca de 2 bilhões de dólares ao ano desde que assumiu o poder, em sua imensa maioria para as forças armadas. Onde foi parar esse dinheiro? Em geral, foi para empresas estadunidenses. Pedi a William Hartung, da New America Foundation, que explicasse isso:

“É uma forma de bem estar empresarial para empresas como Lockheed Martin e General Dynamics, porque o dinheiro vai para o Egito e logo volta para pagar aviões F-16, tanques M-1, motores de aviões, todo tipo de mísseis, pistolas, latas de gás lacrimogêneo de uma empresa chamada Combined Systems International, cujo nome figura nas latas achadas nas ruas do Egito”.

Hartung acaba de publicar um livro, “Os profetas da guerra: Lockheed Martin e a criação do complexo militar industrial”. Continuou dizendo:

“Lockheed Martin encabeçou acordos de 3,8 bilhões de dólares nestes últimos dez anos; a General Dynamics de 2,5 bilhões para tanques; a Boeing de 1,7 bilhões para mísseis e helicópteros e a Raytheon para todo tipo de mísseis para as forças armadas. Então, basicamente este é um elemento fundamental destinado a manter o regime, mas grande parte do dinheiro se recicla. Os contribuintes poderiam simplesmente dar o dinheiro diretamente para a Lockheed Martin ou a General Dynamics”.

De maneira similar, a “chave geral” para bloquear a Internet e os telefones celulares no Egito foi ativada com a colaboração de empresas. A empresa Vodafone (gigante mundial da telefonia celular, proprietária de 45% das ações da Verizon Wireless nos Estados Unidos), com sede na Inglaterra, tentou justificar-se em um comunicado de imprensa: “Estava claro que Vodafone não tinha opções legais nem práticas, mas sim que devia satisfazer as exigências das autoridades”.

Narus, uma subsidiária da Boeing Corporation, vendeu equipamentos ao Egito para permitir uma “inspeção profunda de pacote” (DPI, em sua sigla em inglês), segundo Tim Karr, do grupo de política de mídia Free Press. Karr disse que a tecnologia da Narus “permite às empresas egípcias de telecomunicações ver as mensagens de texto dos telefones celulares e identificar o tipo de vozes dissidentes que existem. Também fornece ferramentas tecnológicas para localizar essas mensagens geograficamente e rastreá-las”.

Mubarak prometeu não se apresentar como candidato à reeleição em setembro. Mas o povo do Egito exige que ele saia agora. Como durou 30 anos? Talvez isso possa ser explicado melhor quando consideramos uma advertência feita por um general do exército dos EUA há 50 anos, o presidente Dwight D. Eisenhower, que disse: “Devemos tratar de evitar que o complexo militar-industrial adquira influência injustificada, seja ela buscada ou não”. Esse complexo mortal não é um perigo apenas para a democracia em nível nacional, mas também quando apoia déspotas no estrangeiro.

Tradução: Katarina Peixoto


Tunísia, Egito, Marrocos...Essas “ditaduras amigas”

Os nossos meios de comunicação e jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos”, Tunísia e Egito, eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? O artigo é Ignacio Ramonet.

Uma ditadura na Tunísia? No Egito, uma ditadura? Vendo os meios de comunicação se esbaldarem com a palavra “ditadura” aplicada a Tunísia de Bem Alí e ao Egito de Moubarak, os franceses devem estar se perguntando se entenderam ou leram bem. Esses mesmos meios de comunicação e esses mesmos jornalistas não insistiram durante décadas que esses dois “países amigos” eram “Estados moderados”? A horrível palavra “ditadura” não estava exclusivamente reservada no mundo árabe muçulmano (depois da destruição da “espantosa tirania” de Saddam Hussein no Iraque) ao regime iraniano? Como? Havia então outras ditaduras na região? E isso foi ocultado pelos meios de comunicação de nossa exemplar democracia? Eis aqui, em todo caso, um primeiro abrir de olhos que devemos ao rebelde povo da Tunísia. Sua prodigiosa vitória liberou os europeus da “retórica hipócrita de ocultamento” em vigor em nossas chancelarias e em nossa mídia. Obrigados a tirar a máscara, simulam descobrir o que sabíamos há algum tempo (1), a saber, que as “ditaduras amigas” não são mais do que isso: regimes de opressão.

Sobre esse assunto, os meios de comunicação não têm feito outra coisa do que seguir a “linha oficial”: fechar os olhos ou olhar para o outro lado confirmando a ideia de que a imprensa só é livre em relação aos fracos e aos povos isolados. Por acaso Nicolás Sarkozy não teve a altivez de assegurar que na Tunísia “havia uma desesperança, um sofrimento, um sentimento de angústia que, precisamos reconhecer, não havíamos apreciado em sua justa medida”, ao se referir ao sistema mafioso do clã Ben Alí-Trabelsi?

“Não havíamos apreciado em sua justa medida...” Em 23 anos...Apesar de contar, neste país, com serviços diplomáticos mais prolíficos que os de qualquer outro país...Apesar da colaboração em todos os setores da segurança (polícia, inteligência...) (2). Apesar das estâncias regulares de altos responsáveis políticos e midiáticos que estabeleciam ali descomplexadamente seus locais de veraneio...Apesar da existência na França de dirigentes exilados da oposição tunisiana, mantidos marginalizados como pesteados pelas autoridades francesas e com acesso proibido durante décadas aos grandes meios de comunicação... Democracia ruinosa...

Na realidade, esses regimes autoritários foram (e seguem sendo) protegidos de modo complacente pelas democracias europeias, que desprezaram seus próprios valores sob o pretexto de que constituíam baluartes contra o islamismo radical (3). O mesmo argumento cínico usado pelo Ocidente durante a Guerra Fria para apoiar ditaduras militares na Europa (Espanha, Portugal, Grécia e Turquia) e na América Latina, pretendendo impedir a chegada do comunismo ao poder.

Que formidável lição das sociedades árabes revolucionárias aqueles que, na Europa, os descreviam em termos maniqueístas, ou seja, como massas dóceis submetidas a tiranos orientais corruptos ou como multidões histéricas possuídas pelo fanatismo religioso. E agora, de repente, elas surgem nas telas de nossos computadores e televisores (conferir o admirável trabalho da Al-Jazeera), preocupadas com o progresso social, não obcecadas pela questão religiosa, sedentas de liberdade, cansadas da corrupção, detestando as desigualdades e reclamando democracia para todos, sem exclusões.

Longes das caricaturas binárias, esses povos não constituem de modo algum uma espécie de “exceção árabe”, mas sim se assemelham em suas aspirações políticas ao resto das ilustradas sociedades urbanas modernas. Um terço dos tunisianos e quase um quarto dos egípcios navegam regularmente pela internet. Como afirma Moulay Hicham El Alaoui: “Os novos movimentos já não estão marcados pelos velhos antagonismos como anti-imperialismo, anticolonialismo ou antisecularismo. As manifestações na Tunísia e no Egito são, até aqui, desprovidas de todo simbolismo religioso. Constituem uma ruptura geracional que refuta a tese do excepcionalismo árabe. Além disso, esses movimentos são animados pelas novas metodologias de comunicação da internet. Eles propõem uma nova versão da sociedade civil, onde o rechaço ao autoritarismo anda de mãos dadas com o rechaço à corrupção” (4).

Especialmente graças às redes sociais digitais, as sociedades da Tunísia e do Egito se mobilizaram com grande rapidez e puderam desestabilizar o poder em tempo recorde. Ainda antes de os movimentos terem a oportunidade de “amadurecer” e favorecer a emergência de novos dirigentes entre eles. É uma das raras ocasiões onde, sem líderes, sem organizações dirigentes e sem programa, a simples dinâmica da exasperação das massas bastou para conseguir o triunfo da revolução. Trata-se de um momento frágil e, sem dúvida, as grandes potências já estão trabalhando, especialmente no Egito, para que “tudo mude sem que nada mude”, segundo o velho adágio de O Leopardo. Esses povos que conquistaram sua liberdade devem lembrar a advertência de Balzac: “Se matará a imprensa assim como se mata um povo, outorgando-lhe a liberdade” (5). Nas “democracias vigiadas” é muito mais fácil domesticar legitimamente um povo do que nas antigas ditaduras. Mas isso não justifica sua manutenção. Nem deve ofuscar o ardor de derrubar uma tirania.

A derrocada da ditadura na Tunísia foi tão veloz que os demais povos magrebinos e árabes chegaram à conclusão de que essas autocracias – as mais velhas do mundo – estavam na verdade profundamente corroídas e não eram, portanto, mais do que “tigres de papel”. Esta demonstração está ocorrendo também no Egito.

Daí esse impressionante levante dos povos árabes, que leva a pensar inevitavelmente no grande florescimento das revoluções europeias de 1848, na Jordânia, Iêmen, Argélia, Síria, Arábia Saudita, Sudão e também no Marrocos.

Neste último país, uma monarquia absoluta, na qual o resultado das “eleições” (sempre viciado) é decidido pelo soberano, que designa segundo sua vontade os chamados ministros “da soberania”, algumas dezenas de famílias próximas ao trono continuam controlando a maioria das riquezas (6). Os telegramas divulgados por Wikileaks revelaram que a corrupção chega a níveis de indecência descomunal, maiores que os encontrados na Tunísia de Ben Alí, e que as redes mafiosas teriam todas como origem o Palácio. Trata-se de um país onde a prática da tortura está generalizada e o amordaçamento da imprensa é permanente.

No entanto, como na Tunísia de Ben Alí, esta “ditadura amiga” se beneficia da grande indulgência dos meios de comunicação e da maior parte de nossos responsáveis políticos (7), os quais minimizam os sinais do começo de um “contágio” da rebelião. Quatro pessoas se imolaram, incendiando suas próprias vestes. Produziram-se manifestações de solidariedade com os rebeldes da Tunísia e do Egito em Tânger, Fez e Rabat (8). Acossadas pelo medo, as autoridades decidiram subvencionar preventivamente os artigos de primeira necessidade para evitar as “rebeliões do pão”. Importantes contingentes de tropas do Saara Ocidental teriam sido deslocados aceleradamente para Rabat e Casablanca. O rei Mohamed VI e alguns colaboradores teriam viajado a França no dia 29 de janeiro para consultar especialistas em ordem pública do Ministério do Interior francês (9).

Ainda que as autoridades desmintam as duas últimas informações, está claro que a sociedade marroquina está seguindo os acontecimentos da Tunísia e do Egito, com excitação. Preparados para unir-se ao impulso de fervor revolucionário e quebrar de uma vez por todas as travas feudais. E para cobrar todos aqueles que, na Europa, foram cúmplices durante décadas dessas “ditaduras amigas”.

NOTAS

(1) Ler, por exemplo, de Jacqueline Boucher "La société tunisienne privée de parole" e de Ignacio Ramonet "Main de fer en Tunisie", Le Monde Diplomatique, de fevereiro de 1996 e de julho de 1996, respectivamente.

(2) Quando Mohamed Bouazizi se imolou incendiando-se em 17 de dezembro de 2010, quando a insurreição ganhava todo o país e dezenas de tunisianos rebeldes continuavam caindo sob as balas da repressão, o prefeito de Paris, Bertrand Delanoé, e a ministra de Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie consideravam absolutamente normal ir festejar alegremente em Tunis.

(3) Ao mesmo tempo, Washington e seus aliados europeus, sem aparentemente medir as contradições, apoiam o regime teocrático e tirânico da Arábia Saudita, principal sede do islamismo mais obscurantista e mais expansionista.

(4) http://www.medelu.org/spip.php?article711

(5) Honoré de Balzac, Monographie de la presse parisienne, Paris, 1843.

(6) Ler Ignacio Ramonet, "La poudrière Maroc", Mémoire des luttes, setembro 2008. http://www.medelu.org/spip.php?article111

(7) Desde Nicolas Sarkozy até Ségolène Royal, passando por Dominique Strauss-Kahn, que possui um “ryad” em Marrakesh, os dirigentes políticos franceses não têm o menor escrúpulo em passar suas férias de inverno entre estas “ditaduras amigas”.

(8) El País, 30 de janeiro de 2011- http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

(9) Ler El País, 30 de janeiro de 2011 http://www.elpais.com/..Mohamed/VI/va/vacaciones y Pierre Haski, "Le discret voyage du roi du Maroc dans son château de l´Oise", Rue89, 29 de janeiro de 2011. http://www.rue89.com/..le-roi-du-maroc-en-voyage-discret...188096
http://www.elpais.com/../Manifestaciones/Tanger/Rabat

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Hipocrisia, prima irmã da mentira

Muita gente ainda lembra de como a direita tupiniquim aplaudiu o golpe de estado hondurenho em 2009. A justificativa dada era de que o governante "chavista" de honduras estava tentando legalizar a reeleição naquele país, o que feria a cláusula pétrea da constituição, e que portanto os "supostos golpistas" é que estavam do lado da lei. Não faltaram comentaristas como Arnaldo Jabor e Merval Pereira, para defender esta posição.

Pois vejam como o mundo da voltas: O governo golpista direitista de honduras acaba de aprovar mudanças constitucionais que abrem caminho para a reeleição. Isso mesmo! Fizeram tudo aquilo que haviam supostamente tentado impedir ao tomar o poder. E nossa mídia tupiniquim não nos forneceu uma única notícia sobre esse desconcertante fato.

Para você que não sabia ainda dessa reviravolta, ou que soube mas ainda está com dificuldades de acreditar, aqui vai uma reportagem dada pela Telesul noticiando o fato.


Paz
Alexei

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Olhos em Cairo

Fisk: Por quanto tempo Mubarak aguentará?

Por quanto tempo Mubarak aguentará?

31/1/2011, Robert Fisk, The Independent, UK

A senhora, idosa, de véu vermelho, estava parada a polegadas de um tanque M1 fabricado nos EUA, do 3º Exército Egípcio, bem à margem da Praça Tahrir. Os soldados eram paramilitares, alguns com barretes vermelhos, outros com capacetes, barreiras de fuzis apontadas para a praça, metralhadoras pesadas armadas nos tabiques. “Se atirarem contra o povo egípcio, Mubarak está acabado” – disse ela. “E se não atirarem contra o povo egípcio, Mubarak está acabado”. O povo no Egito está tomado dessa sabedoria.

Pouco antes de amanhecer, quatro F-16 Falcons – outra vez, é claro, fabricados no país do presidente Obama – apareceram ganindo sobre a praça, os ecos reverberando nas paredes cinzentas do gigantesco prédio nasserista, seguidos por dezenas de milhares de olhos que se erguiam da praça para o céu. “Estão conosco”, muitos gritaram. Acho que não, pensei. Nem os tanques, novos na praça, ao todo 14 que apareceram sem slogans grafitados, os soldados, assustados, não saíram das cabines – e que os manifestantes também acreditavam que ali estivessem para protegê-los.

Mas então, quando me aproximei de um oficial num dos tanques, vi que abria um sorriso. “Jamais atiraremos contra nosso povo, ainda que venham ordens para atirar” – ele gritou, para fazer-se ouvir acima do barulho do motor. Tampouco me convenceu completamente. O presidente Hosni Mubarak – ou talvez se deva escrever ‘presidente’, entre aspas, estava no quartel-general, depois de nomear a nova junta de ex-militares e agentes de inteligência. Os boatos zuniam pela praça: o velho lobo lutaria até o fim. Para outros, não faria diferença. “Poderá matar 80 milhões de egípcios?”

Começaram a crescer sentimentos de antiamericanismo, depois de o presidente Obama ter mantido o apoio de sempre, embora morno, ao governo de Mubarak. “Não Obama, Não Mubarak” – lia-se em vários cartazes. Mubarak, com uma estrela de Davi pintada sobre o rosto. Muita gente apanhava do chá caixas vazias de balas de festim usadas semana passada, todas com o selo “Made in the USA”. Vi que o tanque que vinha à frente tinha letras semiapagadas na lateral, que começavam com “MFR” – mas foi quando um soldado com rifle e baioneta receber ordem para me prender; corri para dentro da multidão e ele desistiu –, mas será que “MFR” é a sigla correspondente a US Mobile Force Reserve [Força Móvel de Reserva dos EUA], que mantém tanques em território egípcio? Essa coluna de tanques teria sido emprestada pelos EUA? Fácil ver o uso que os egípcios deram aos tanques.

Assisti a cenas extraordinárias antes, durante o dia, misturado à multidão entre os manifestantes e os soldados que conduziam outra unidade de tanques (naquele caso, máquinas velhas, Pattons M-60, do tempo do Vietnã), que parecia estar ali para dar cobertura aos canhões de água mandados para dispersar a multidão. Centenas de jovens cercaram um dos tanques e quando um tenente de óculos escuros atirou para o ar, foi empurrado contra o próprio tanque e obrigado a escalá-lo para fugir dos rapazes. Mas a multidão logo mudou de humor; os rapazes posaram para fotografias sobre o tanque e ofereceram frutas e água aos soldados.

Quando uma longa coluna de soldados formou-se na largura da rua, um homem muito velho e corcunda, pediu e obteve licença para aproximar-se. Segui-o e vi abraçar e beijar o tenente nos dois lados do rosto; disse “Vocês são nossos filhos. Vocês são nosso povo”. Em seguida andou ao longo da coluna, beijando e abraçando cada soldado, como se fosse seu filho. É preciso ter coração de pedra para não se emocionar com essas cenas de que ontem o dia foi cheio.

Às tantas, um grupo de manifestantes trouxe um homem que disseram ter apanhado roubando – no momento, o Cairo parece estar cheio de ladrões – e empurraram na direção dos soldados. “Vocês estão aí para nos proteger” – cantavam. Um dos soldados bateu no homem, no rosto, e o oficial esbofeteou o soldado. O soldado sentou na calçada, balançando a cabeça, desentendido. Durante todo o dia, um helicóptero egípcio Mi-25 – esse, relíquia da era soviética – sobrevoou a multidão, armado com seis foguetes, mas nada fez. Depois foi um Gazelle, de fabricação francesa, da Força Aérea do Egito, que voou sobre a multidão, e as pessoas acenaram na direção de onde se via o piloto, que também acenava em resposta.

Os egípcios, sem cessar, procuravam fazer contato com quem lhes parecesse estrangeiro – e um inglês de cabelos grisalhos como eu pareci-lhes suficientemente estrangeiro –, insistindo em que, depois que um povo perde o medo, não há como voltar a acovardar-se.

“Nunca mais teremos medo”, gritava uma jovem na minha direção, no momento em que os jatos gritavam também. E um ex-policial, que se apresentava como atual homem de ligação entre os manifestantes e o exército disse que “o exército estará conosco, porque eles sabem que Mubarak tem de sair”. Outra vez, não estou muito convencido.

E os saques e incêndios continuam. O ex-policial – que disso parecia entender – disse-me que muitos dos saqueadores são de um grupo que fez parte do Partido Democrático Nacional de Mubarak, cuja função fora a de convencer os egípcios a comparecer às urnas e votar em seu amado líder. Nesse caso, por que, todos nos perguntamos, esses homens estariam dedicados a assaltos e saques, exatamente os mesmos crimes de que os acusam todos os que exigem que Mubarak deixe o país? Essa exigência, aliás, inclui também Omar Suleiman, cuja expulsão a multidão deseja, o ex-espião chefe, que acaba de ser nomeado para a vice-presidência.

Por todo o Egito, em praticamente todas as ruas do Cairo, há hoje vigilantes – cidadãos comuns, não homens de Mubarak, cansados das gangues semioficiais que hoje assaltam o próprio povo na calada da noite. Para voltar ao hotel ontem à noite, tive de passar por oito postos de controle controlados por civis, jovens e velhos – um deles manteve-se perfilado, com uma bengala numa mão e um velho rifle britânico Lee Enfield .303 na outra – que agora prendem os ladrões e saqueadores e os entregam ao exército. Não é o “Exército de Papai”[1].

Nas primeiras horas da manhã de ontem, um grupo de homens armados invadiu o Children’s Cancer Hospital, próximo do velho aqueduto romano. Queriam levar equipamento médico, mas foram expulsos por manifestantes que os ameaçaram com facas e os expulsaram. O Dr. Khaled el-Noury, cirurgião chefe do hospital contou-me que os assaltantes armados pareciam desorganizados e pareciam assustados.

Não à toa. O encarregado da recepção no hospital mostrou-me o facão de cozinha que guarda na gaveta para proteger-se. E vi outros sinais do lado de fora do portão, onde havia homens armados com bastões e porretes. Um menino – oito anos, talvez – apareceu portando um facão de açougueiro, de 50cm, quase metade da altura do menino. Outro homem apareceu cumprimentar o jornalista estrangeiro, com um facão do mesmo tamanho.

Não há terceira força. E eles creem no exército. Os soldados atacarão a praça? E que diferença, fará, afinal, que ataquem ou não, para a partida de Mubarak?

Pepe Escobar: Fúria, fúria, contra a contrarrevolução

Fúria, fúria, contra a contrarrevolução

1/2/2011, Pepe Escobar, Asia Times Online

Fúria, fúria, contra a morte da luz (Dylan Thomas)

Islamófobos de todo o mundo calem o bico e ouçam o som do poder do povo. A dicotomia artificial que inventaram para o Oriente Médio – ou a ditadura de vocês ou o jihadismo – jamais passou de truque barato. Repressão política, desemprego em massa e comida cara são mais letais que um exército de homens-bomba. Assim se escreve a história real; um país de 80 milhões – dois milhões dos quais nascidos depois de o ditador de hoje ter chegado ao poder em 1981, e nada menos que o coração do mundo árabe – põe afinal abaixo o Muro do Medo e passa para o lado do autorrespeito.

O neofaraó egípcio Hosni Mubarak ordenou toque de recolher; ninguém arredou pé das ruas. A polícia atacou; os cidadãos organizaram a própria segurança. Chegaram os tanques; a multidão continuou a cantar “de mãos dadas, o exército e o povo são aliados”. Nada de revolução colorida parida em think-tanks, nada de islâmicos em ordem unida; são egípcios médios, carregando a bandeira nacional, “juntos, como indivíduos num grande esforço cooperativo para exigir de volta o país que nos pertence” – nas palavras do romancista egípcio e Prêmio Nobel Ahdaf Soueif.

E então, inevitável como a morte, a contrarrevolução levantou a cabeçorra armada. Jatos bombardeiros made in USA e helicópteros militares atacaram “bravamente” em voos rasantes as multidões na Praça Tahrir [Praça Liberdade] (retrato do governo de Mubarak como exército de ocupação no Egito; e imaginem o ultraje do ocidente, se o ataque acontecesse em Teerã). Comandantes militares falando sem parar pela televisão estatal. Ameaça de que tanques de fabricação norte-americana tomariam as ruas – conduzidos por soldados de batalhões de elite – para o ataque final (embora os próprios soldados dissessem a jornalistas da rede al-Jazeera que em nenhum caso disparariam contra a multidão). Para coroar, a “subversiva” rede al-Jazeera foi repentinamente cortada do ar.

Diga alô ao meu suave torturador…

A Intifada egípcia – dentre outros múltiplos significados – já reduziu a cacos a propaganda inventada no ocidente, de que “árabes são terroristas”. Agora, as mentes afinal descolonizadas, os árabes inspiram o mundo inteiro, ensinam ao ocidente como se faz mudança democrática. E adivinhem só! Ninguém precisou de “choque e horror”, rendições, tortura e trilhões de dólares do Pentágono para que a coisa funcionasse! Não surpreende que Washington, Telavive, Riad, Londres e Paris, todas, nem suspeitaram do que estava a caminho.

Hoje somos todos egípcios. O vírus latino-americano – bye-bye ditaduras e neoliberalismo arrogante, caolho, míope – contaminou o Oriente Médio. Primeiro a Tunísia. Agora o Egito. Depois o Iêmen e possivelmente a Jordânia. Logo a Casa de Saud (não surpreende que culpem os egípcios pelos “tumultos”). Mas o terremoto político do norte da África, na Tunísia, em 2011 também colheu a faísca dos movimentos de massa na Europa em 2010 – Grécia, Itália, França, Reino Unido. Fúria, fúria contra a repressão política, contras as ditaduras, contra a brutalidade da Polícia, contra os preços da comida, contra a inflação, contra empregos miseráveis, contra o desemprego em massa.

Faraó 2011 parece remix de Xá do Irã 1979. Claro, não há aiatolá Ruhollah Khomeini para liderar as massas egípcias, e o ex-chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, o egípcio Mohamed ElBaradei, está sendo acusado por alguns, nas ruas, de “assaltar nossa revolução”. Mas é difícil não lembrar que o Xá do Irã está enterrado no Cairo, porque os iranianos não permitiram que fosse enterrado na terra-mãe.

O Faraó reagiu à Intifada nomeando para a vice-presidência seu czar “suave” da inteligência, Omar Suleiman (o primeiro vice-presidente, desde que o Faraó assumiu o poder em 1981), e virtual sucessor. Suleiman é sinistro suave especialista em rendição, no qual a CIA confia e que supervisionou número incontável de sessões de tortura de ditos “terroristas” em território egípcio; senhor, que fala inglês, de sua Guantánamo árabe. Em Washington, o establishment gostou muito.

Mas os imperialistas que anotem bem: a última vez que as ruas egípcias levantaram-se como levantaram-se hoje, foi em 1919, durante a revolução contra os britânicos. Agora, para muçulmanos e cristãos, operários, classe média, massas desempregadas, advogados, juízes, professores e doutores da Universidade al-Azhar, alunos, camponeses, teólogos, jornalistas e blogueiros independentes, ativistas da Irmandade Muçulmana, Associação Nacional para a Mudança, Movimento 16 de abril, para todos esses, os dias de Mubarak de Revolução dos Bichos estão contados.

Cinco movimentos de oposição – inclusive a Fraternidade Muçulmana – autorizaram ElBaradei a negociar a formação de um “governo de salvação nacional” de transição. Aposta-se que o Faraó nada ou quase nada negociará. Para aumentar a complexidade o núcleo da geração de jovens ativistas crê muito mais em “comitês populares” que em ElBaradei.

É verdade que, no que tenha a ver com as próximas eleições em setembro, Mubarak, 82, está morto. O filho, Gamal, 47, idem. Relatos não confirmados dizem que, à moda típica dos filhos de ditadores, o filho já fugiu para Londres, usando seu passaporte britânico, com montanhas de bagagem, e estaria agora escondido na casa londrina da família, em Knightsbridge.

O futuro crucial imediato depende do lado para o qual penderá o exército egípcio. No pé em que estão as coisas, ainda não está totalmente afastado uma alternativa Tiananmen – repressão linha duríssima. Seja como for, o poder de ação do governo é claro; pode acontecer até de o Faraó meter-se naquele avião – como cantam as ruas –, mas o regime, a ditadura militar, tem de ser mantida.

O general Hussein Tantawi, comandante em chefe do exército e ministro da Defesa, amigo que bebe o vinho e come a comida do Pentágono, do qual recebe 1,3 bilhão de dólares anuais a título de “ajuda” – voou de volta ao Cairo. Numa trilha paralela, o Faraó, jogando desesperadamente com os medos do ocidente sobre “estabilidade”, tentou desqualificar a Intifada como grupo de desordeiros e arruaceiros donos de terrenos nas favelas, que querem ver cada vez mais caos e destruição. Um grupo de blogueiros egípcios não tem dúvidas – a estratégia do Faraó é assustar as pessoas e empurrá-las de volta para dentro das casas, implorando por “segurança”.

Issander El Amrani, do blog The Arabist (http://www.arabist.net/), destaca que “é difícil acreditar que Mubarak ainda esteja no poder, mas o núcleo duro do regime está usando meios extremos para salvar sua posição”. Nas ruas, todos suspeitam de um golpe orquestrado por Washington na cúpula do regime – EUA/Israel apostando tudo na fórmula “Mubarak talvez caia/mas sem mudança de regime”, com sauditas, israelenses e a mídia egípcia oficial mexendo todos os pauzinhos para desacreditar a revolução. Para analisar com algum distanciamento: nos EUA houve dois governos de Ronald Reagan, um de George H W Bush, dois de Bill Clinton, dois de George W Bush e um de Barack Obama. No Egito, sempre só houve Mubarak.

A classe média egípcia, empobrecida mas letrada e orgulhosa, e a os trabalhadores, nada querem além de um país regido por leis e com eleições transparentes. Como, então, acreditariam em Suleiman, torturador ligado à CIA, para conduzir a transição? Para nem falar de um Parlamento completamente controlado pelo inacreditavelmente corrupto Partido Nacional Democrático de Mubarak, cuja sede foi incendiada pelos manifestantes.

O passo do dissidente egípcio

No início de 2003, passei dois meses no Cairo e em Alexandria, à espera da invasão de Bush ao Iraque – convivendo quase exclusivamente com o oceano de rejeitados pelo sistema de Mubarak, de universitários formados a imigrantes sudaneses, inclusive representantes rejeitados dos 40% da população que vive com menos de 2 dólares por dia. Desnecessário dizer que todos viam Mubarak como poodle repulsivo de Washington – e todos estavam em choque ante a tragédia do Iraque, que o Egito reverencia historicamente como flanco leste da nação árabe. O regime, para eles, era do tipo que “afoga mendigos no Nilo”.

Foi elucidativo – e terrivelmente doloroso – conhecer em campo as consequências do regime de Mubarak, aplicado regime pupilo do neoliberalismo aplicado pelos EUA. Consequências inevitáveis, a inflação alta e o enorme desemprego. A classe média urbana praticamente já desaparecera. A classe trabalhadora, sufocada na mão de ferro dos sindicatos. E a classe média rural – que foi base do regime – também em crise, com os jovem obrigados a imigrar para as cidades à procura de empregos (que não encontram). Sobrevivente, só uma pequena classe de comerciantes, corruptos, associados ao Estado (a maioria dos quais hoje já fugiu para Dubai em jatos privados).

Não surpreende pois que não se trate de uma revolução islâmica, como no Irã em 1979. É a economia, estúpido. O Islã hoje no Egito está dividido em duas correntes: salafitas não politizados e a Fraternidade Muçulmana – dizimada por décadas de repressão e tortura e, hoje, sem qualquer programa político explícito, além de oferecer serviços de assistência à população negligenciada pelo Estado.

O fato de a Fraternidade Muçulmana ter-se mantido nas coxias do movimento das ruas explica-se por dois fatores. Se se expusesse demais, Mubarak teria o pretexto perfeito para associar a revolução aos “terroristas”. Além disso, a Fraternidade avalia que, hoje, é apenas um ator entre vários.

Trata-se de movimento popular espontâneo que segue as pegadas do Kefaya (“Basta!”) – movimento popular “amarelo” (escolheu essa cor), de intelectuais e ativistas políticos, cujo slogan, já em 2004 era La lil-tamdid, La lil-tawrith (“Não a outro mandato, não queremos uma república hereditária”) [mais, sobre o movimento, em http://en.wikipedia.org/wiki/Kefaya].

O movimento Kefaya, apesar de ser movimento de elite, sem liderança, não-ideológico, foi a faísca que despertou mais de mil movimentos, dentre os quais “Jornalistas pela Mudança”, “Operários pela Mudança”, “Médicos para a Mudança” ou “Jovens para a Mudança” levaram à atual onda de incontáveis fóruns online em que se reúnem cidadãos urbanos, de classe média e baixa, todos usuários experientes da internet.

Outro desenvolvimento crucial foi a greve, em 2008, dos trabalhadores das indústrias têxteis da cidade de Mahalla al-Kubra no delta do Nilo, onde três operários foram mortos pelos guardas de segurança de Mubarak dia 16 de abril –, e que inspirou a criação do movimento online de mesmo nome (Facebook. Sobre o movimento, ver http://www.wired.com/techbiz/startups/magazine/16-11/ff_facebookegypt ).

O Santo Graal demorou para mobilizar as massas. Semana passada, afinal, conseguiram. Os jovens influenciados pelo movimento Kefaya preferem comitês populares para guiar os passos futuros de sua revolução, em vez de políticos. O pulso das ruas parece indicar que a maioria dos egípcios não querem que nenhuma ideologia política ou religiosa monopolize o que é movimento líquido, pluralista, múltiplo para reformar radicalmente o país e criar ali um novo modelo para o mundo árabe. Talvez um pouco sedutoramente romântico demais. Mas que tenha vivido 30 anos numa espécie de Revolução dos Bichos precisa dolorosamente de alguma catarse.

Rebelo-me, logo, existo

Para Fawaz Gerges, professor de economia da London School of Economics, tudo isso “ultrapassa em muito o problema Mubarak. A barreira do medo foi removida. É realmente o começo do fim do status quo na Região.” Que é maior que Mubarak, é; é exemplo vigoroso do que seja ativismo político orgânico, de base.

Ora, no discurso de elite do Dr. Zbigniew Brzezinski, guru de política exterior dos EUA, trata-se de seu temido “despertar político global” em ação – a Geração Y em todo o mundo em desenvolvimento, furiosa, irada, ultrajada, emocionalmente em frangalhos, quase toda desempregada, com a dignidade em farrapos, deixando aflorar seu potencial revolucionário e virando o status quo de cabeça para baixo (mesmo depois de o Faraó ter conseguido implantar o maior blecaute da história da Internet).

Assim como o movimento Kefaya foi a fagulha, essa foi também uma revolução do Facebook – que hoje, nas ruas do Cairo, Alexandria e Suez já foi rebatizado e chama-se agora Sawrabook (“o livro da revolução”). Uma rede RASD (“de monitoramento”, em árabe) foi lançada no primeiro dia dos protestos, 4ª-feira passada, configurada como uma espécie de “observatório da revolução”.

É crucialmente importante observar que naquele momento – há menos de uma semana – a rede al-Jazeera ainda não chegara ao Egito e a televisão estatal egípcia exibia, como sempre, velhos filmes em branco e preto. Em apenas três dias, a RASD reuniu em rede cerca de 400 mil usuários, no Egito e no mundo. Quando o regime do Faraó acordou, já era tarde demais – e de nada lhe serviu derrubar a internet.

É esse espírito de solidariedade em ação que invadiu as ruas sob a forma de jovens ativistas operando telefones sem fio, fotografando e filmando ataques e feridos ou montando tendas para atendimento de campanha. Ou moradores da cidade do Cairo, oferecendo as próprias casa para abrigar manifestantes e organizando piquetes de vizinhos para proteger-se da ação de saqueadores e ladrões – muitos dos quais mostrados por blogueiros, quando carregavam equipamentos de identificação dos postos armas retiradas dos postos de polícia de Mubarak.

Por mais alarmadas que estejam as rarefeitas elites globais – basta seguir o labirinto de ambiguidades que liga Washington e as capitais europeias –, Brzezinski, pelo menos, parece suficientemente ligado para entender a deriva geral, quando “as principais potências mundiais, novas e velhas (…) enfrentam uma nova realidade: embora a letalidade do poder bélico seja hoje maior do que nunca, a capacidade de impor controle a massas que já despertaram para a vida política alcança hoje o ponto mais baixo de toda a história.”

A velha ordem está morrendo, mas a nova ainda não nasceu. A Idade da Fúria no arco que vai da África do Norte ao Oriente Médio parece ter começado – mais ainda não se sabe qual será a nova configuração geopolítica. O povo se fará ouvir – ou acabará encurralado e controlado pelas potências que aí estão?

O Egito não se converterá em democracia que funciona porque falta a infraestrutura política. Mas pode recomeçar do começo, com todas as oposições tão desprestigiadas quando o regime. A geração mais jovem – potencializada pela emoção de estar lutando do lado certo da história – terá papel crucial.

Não aceitarão a ilusão de ótica de alguma falsa mudança de regime, só para preservar alguma “estabilidade”. Não aceitarão ser sequestrados por EUA e Europa, apresentados como neofantoches. Querem o choque do novo; governo verdadeiramente soberano, nada de neoliberalismo e uma nova ordem política para o Oriente Médio.

A contrarrevolução será feroz. E atacará muito mais do que alguns bunkers no Cairo.

Para ver o que está acontecendo no Egito sem intermediários, clique aqui.

Eu, Azenha, leio o Arabist (em inglês).

Para saber o que se passa na Jordânia, vá ao blog do Ali Abunimah.

Um blog (em inglês) para acompanhar o que se passa no Yemen.


Egito: uma revolução de verdade

Por Robert Fisk, do The Independent. Publicado no Outras Palavras com tradução do Coletivo Vila Vudu

Pode ser o fim. Com certeza é o começo do fim. Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni Mubarak depois de mais de 30 anos.

Enquanto Cairo mergulha em nuvens de gás lacrimogêneo das milhares de granadas lançadas contra multidões compactas, era como se a ditadura de Mubarak realmente andasse rumo ao fim. Ninguém, dos que estávamos ontem nas ruas do Cairo, tínhamos nem ideia de por onde andaria Mubarak – que mais tarde apareceria na televisão, para demitir todos seus ministros. Nem encontrei alguém preocupado com Mubarak.

Eram dezenas de milhares, valentes, a maioria pacíficos, mas a violência chocante dos battagi – em árabe, a palavra significa literalmente “bandidos” – uniformizados sem uniforme das milícias de Mubarak, que espancaram, agrediram e feriram manifestantes, enquanto os guardas apenas assistiam e nada fizeram, foi uma desgraça. Esses homens, quase todos dependentes de drogas e ex-policiais, eram ontem a linha de frente do Estado egípcio. Os verdadeiros representantes de Hosni Mubarak.

Num certo momento, havia uma cortina de gás lacrimogêneo por cima das águas do Nilo, enquanto as milícias antitumultos e os manifestantes combatiam sobre as grandes pontes sobre o rio. Incrível. A multidão levantou-se e não mais aceitará a violência, a brutalidade, as prisões, como se essa fosse a parte que lhe coubesse na maior nação árabe do planeta. Os próprios policiais pareciam saber que estavam sendo derrotados. “E o que podemos fazer?” – perguntou-nos um dos guardas das milícias antitumulto. “Cumprimos ordens. Pensam que queremos isso? Esse país está despencando ladeira abaixo.” O governo impôs um toque de recolher noite passada. A multidão ajoelhou-se para rezar, à frente da polícia.

Como se descreve um dia que pode vir a ser página gigante da história do Egito? Os jornalistas devem abandonar as análises e apenas narrar o que aconteceu da manhã à noite, numa das cidades mais antigas do mundo. Então, aí está a história como a anotei, garatujada no meio da multidão que não se rendeu a milhares de policiais uniformizados da cabeça aos pés e e milicianos sem uniforme.

Começou na mesquita Istikama na Praça Giza: um sombrio conjunto de apartamentos de blocos de concreto, e uma fileira de policias especializados em controle de tumultos que se estendia até o Nilo. Todos sabíamos que Mohamed ElBaradei ali estaria para as orações do meio dia e, de início, parecia que não haveria muita gente. Os policiais fumavam. Se fosse o fim do reinado de Mubarak, aquele começo do fim pouco impressionava.

Mas então, logo que as últimas orações terminaram, uma multidão de fiéis apareceu na rua, andando em direção aos policiais. “Mubarak, Mubarak”, gritavam, “a Arábia Saudita o espera”. Foi quando os canhões de água foram virados na direção da multidão – a polícia estava organizada para atacar os manifestantes, mesmo não sendo atacada. A água atingiu a multidão e em seguida os canhões foram apontados diretamente contra ElBaradei, que retrocedeu, encharcado.

ElBaradei desembarcara de Viena poucas horas antes, e poucos egípcios creem que chegue a governar o Egito – diz que só veio para ajudar como negociador –, mas foi atacado com brutalidade, uma desgraça. O político egípcio mais conhecido e respeitado, Prêmio Nobel, trabalhou como principal inspetor da Agência Nuclear da ONU, ali, encharcado como gato de rua. Creio que, para Mubarak, ElBaradei não passaria de mais um criador de confusão, com sua “agenda oculta” – essa, precisamente, é a linguagem que o governo egípcio fala hoje.

Aí, começaram as granadas de gás lacrimogêneo. Alguns milhares delas, mas algo aconteceu, enquanto eu caminhava ao lado dos lança-granadas. Dos blocos de apartamentos e das ruas à volta, de todas as ruas e ruelas, centenas, depois de milhares de pessoas começaram a aparecer, todas andando em direção à Praça Tahrir. Era o movimento que a polícia queria impedir. Milhares de cidadãos em manifestação no coração da cidade do Cairo daria a impressão de que o governo já caíra. Já haviam cortado a internet – o que isolou o Egito, do resto do mundo – e todos os sinais de telefonia celular estavam mudos. Não fez diferença.

“Queremos o fim do regime”, gritavam as ruas. Talvez não tenha sido o mais memorável brado revolucionário, mas gritaram e gritaram e repetiram, até derrotar a chuva de granadas de gás lacrimogêneo. Vinham de todos os lados da cidade do Cairo, chegavam sem parar, jovens de classe média de Gazira, os pobres das favelas de Beaulak al-Daqrour, todos marchando pelas pontes sobre o Nilo, como um exército. Acho que sim, são um exército.

A chuva de granadas de gás continuava sobre eles. Tossiam e esfregavam os olhos e continuavam andando. Muitos cobriram a cabeça e a boca com casacos e camisetas, passando em fila pela frente de uma loja de sucos, onde o dono esguichava limonada diretamente na boca dos passantes. Suco de limão – antídoto contra os efeitos do gás lacrimogêneo – escorria pela calçada e descia pelo esgoto.

Foi no Cairo, claro, mas protestos idênticos aconteceram por todo o Egito, como em Suez, onde já há 13 egípcios mortos.

As manifestações não começaram só nas mesquitas, mas também nas igrejas coptas. “Sou cristão, mas antes sou egípcio” – disse-me um homem, Mina. “Quero que Mubarak se vá!” E foi quando apareceram os primeiros bataggi sem uniforme, abrindo caminho até a frente das fileiras da polícia uniformizada, para atacar os manifestantes. Estavam armados com cassetetes de metal – onde conseguiram? – e barras de ferro, e poderão ser julgados e condenados por agressão grave e assassinato, se o regime de Mubarak cair. São pervertidos. Vi um homem chicotear um jovem pelas costas, com um longo cabo amarelo. O rapaz gritou de dor. Por toda a cidade, os policiais uniformizados andam em pelotões, o sol refletindo no visor dos capacetes. A multidão já deveria ter sido intimidada, àquela altura, mas a polícia parecia feia, como pássaros encapuzados. E os manifestantes alcançaram a calçada da margem leste do Nilo.

Alguns turistas foram colhidos de surpresa no meio do espetáculo – vi três senhoras de meia idade, numa das pontes do Nilo (os hotéis, claro, não informaram os hóspedes sobre o que estava acontecendo –, mas a polícia decidiu que fecharia a extremidade leste do viaduto. Dividiram-se outra vez, para deixar passar as milícias não uniformizadas, e esses brutamontes atacaram a primeira fileira dos manifestantes. E foi quando choveu a maior quantidade de granadas de gás, centenas de granadas, em vários pontos, contra a multidão que andava sem parar por todas as grandes vias, em direção cidade. Os olhos ardem, e tosse-se horrivelmente, até perder o fôlego. Alguns homens vomitavam nas soleiras das portas fechadas das lojas.

O fogo começou, ao que se sabe, noite passada, na sede do NDP, Partido Democrático Nacional, partido de Mubarak. O governo impôs um toque de recolher, e há relatos de tropas na cidade, sinal grave de que a polícia pode ter perdido o controle dos acontecimentos. Nos abrigamos no velho Café Riche, perto da Praça Telaat Harb, restaurante e bar minúsculo, com garçons vestidos de azul; e ali, tomando café, estava o grande escritor egípcio Ibrahim Abdul Meguid, bem ali à nossa frente. Foi como dar de cara com Tolstoi, almoçando em plena revolução russa. “Mubarak está sem reação!” – festejou ele. “É como se nada estivesse acontecendo. Mas vai, agora vai. O povo fará acontecer!” Sentamos, ainda tossindo e chorando por causa do gás. Foi desses instantes memoráveis, que acontecem mais em filmes que na vida real.

E havia um velho na calçada, cobrindo os olhos com a mão. Coronel da reserva Weaam Salim do exército do Egito, que saiu para a rua com todas as suas medalhas da guerra de 1967 contra Israel – que o Egito perdeu – e da guerra de 1973 que, para o coronel, o Egito venceu. “Estou deixando o piquete dos soldados veteranos” – disse-me ele. “Vou-me juntar aos manifestantes”. E o exército? Não se viram soldados do exército durante todo o dia. Os coronéis e brigadeiros mantêm-se em silêncio. Estarão à espera da lei marcial de Mubarak?

As multidões não obedeceram ao toque de recolher. Em Suez, caminhões da polícia foram incendiados. Bem à frente do meu hotel, tentaram jogar no rio Nilo um caminhão da Polícia. Não consegui voltar à parte ocidental do Cairo pelas pontes. As granadas de gás ainda empesteiam as margens do Nilo. Mas um policial ficou com pena de nós – emoção absolutamente inexistente, devo dizer, ontem, entre os policiais – e nos guiou até a margem do rio. E ali estava uma velha lancha egípcia a motor, de levar turistas, com flores plásticas e proprietário disponível. Voltamos em grande estilo, bebendo Pepsi. Cruzamos com uma lancha amarela, super rápida, da qual dois homens faziam sinais de vitória para a multidão sobre as pontes. Uma jovem, sentada na parte de trás da lancha, carregava uma imensa bandeira: a bandeira do Egito.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Em busca do inevitável

Olá amigos.
Trago aqui mais um artigo relacionado aos acontecimentos recentes do oriente médio. E é importante que ressaltemos o quão importante são estes acontecimentos, pois o oriente médio vem fazendo manchetes há muito tempo, mas finalmente dessa vez as notícias falam de reais mudanças na estrutura política da região. Não apenas de mortes e mentiras, mas da morte da mentira. De fato, talvez estejamos assistindo ao fim de algumas das maiores mentiras do mundo. Falácias hipócritas como a de que o ocidente, liderado pelos EUA, defendem a democracia na região. Ora pois. Democracia desde que o nosso ditador continue no poder, não é mesmo? Vemos tanta retórica diária contra a república islâmica do Irã mas apenas sorrisos e afagos para os ditadores da Arg
élia, Egito, Marrocos, Arábia Saudita, Kuait, Emirados árabes, Jordânia, Bahrein e Yemen. Pois que se diga. Morte às ditaduras. Viva a verdadeira democracia. Não a democracia dos leões, das armas, da manipulação midiática e do petróleo, e sim a democracia do povo. Tremei poderosos, pois o seu momento está chegando, e os livros de história os esperam com páginas quase vingativas.

Chegou a hora de buscarmos o inevitável.

A análise que ponho aqui é um artigo curto mas contundente de Robert Fisk (o simpático senhor da foto) que, para quem não conhece, se trada do mais respeitado jornalista ocidental especializado no oriente médio. Aqui ele está relacionando o clamor por democracia nesses países com os recém revelados "papeis da palestina" que estão tendo um efeito demolidor sobre o Fatah, o grupo islâmico preferido dos EUA e de Israel. Para quem não lembra, o Fatah só chegou ao poder na Cisjordânia por via das armas após terem perdido as eleições de 2006 para o Hamas. Sim, pois Israel, num gesto de esquizofrenia democrática, simplesmente invadiu a Faixa de Gaza e aprisionou a maioria dos deputados eleitos ligados ao Hamas. Hoje negociam exclusivamente com o Fatah enquanto jogam bombas sobre os membros do grupo político eleito pelo povo da palestina.

Mas tudo bem. Os ventos estão mudando.

Paz
Alexei.


Robert Fisk: Os falsos democratas, em

polvorosa

Robert Fisk:

Uma nova verdade raia sobre o mundo árabe

26/1/2011, The Independent, UK

Os “documentos da Palestina” são tão demolidores quanto a Declaração de Balfour.

[Para saber que raio é isso, clique aqui]

A ‘Autoridade’ Palestina – e as aspas são indispensáveis – estava e está pronta a ceder o “direito de retorno” de talvez sete milhões de refugiados ao que hoje é Israel, em troca de um “estado” ao qual corresponderá apenas 10% (se ta

nto) do território do Mandato britânico na Palestina.

E, à medida que são revelados esses documentos terríveis, o povo egípcio começa a exigir o fim do regime do presidente Mubarak, e os libaneses indicam um primeiro-ministro que servirá ao Hezbollah. Poucas vezes o mundo árabe viu coisa semelhante.

Para começar pelos Documentos da Palestina, é evidente que os representantes do povo palestino estavam prontos para destruir qualquer esperança que os refugiados tivessem de algum dia voltar para casa.

Será – e é – ultraje para os palestinos saber que seus representantes lhes deram as costas. Não há modo pelo qual, à luz dos Documentos da Palestina, os palestinos ainda crerem que algum dia recuperarão direitos seus.

Já viram, em vídeo e por escrito, que jamais voltarão. Mas em todo o mundo árabe – o que não significa mundo muçulmano – há hoje uma compreensão da verdade que jamais por ali se viu antes.

Já não é possível, para o povo do mundo árabe, mentir uns aos outros. Acabou-se o tempo das mentiras. As palavras daqueles líderes – que desgraçadamente são também nossas palavras – esgotaram-se. E nós as levamos até esse fracasso. Nós mentimos a eles todas essas mentiras. E nunca mais conseguiremos recriá-las.

No Egito, nós britânicos amamos a d

emocracia. Incentivamos a democracia no Egito – até que os egípcios decidiram que queriam por fim à monarquia. Então os metemos na prisão. Queríamos mais democracia. Sempre a mesma velha história. Assim como quisemos que os palestinos gozassem de democracia, desde que votassem ‘certo’, nos candidatos ‘certos’, quisemos que os egípcios apreciassem nossa vida democrática. Agora, no Líbano, parece que nossa democracia será substituída pela democracia libanesa. E não gostamos dela.

Queremos que os libaneses, é claro, apóiem o pessoal que nós apoiamos, os muçulmanos sunitas que apoiavam Rafiq Hariri, cujo assassinato – cremos, com razão – foi orquestrado pelos sírios. E agora enfrentamos, nas ruas de Beirut

e, queima de carros e violência contra o governo.

Mas… Em que direção estamos andando? Será, talvez, na direção de deixar que o mundo árabe escolha seus próprios líderes? Veremos talvez um novo mundo árabe não controlado pelo ocidente? Quando a Tunísia fez saber ao mundo que estava livre, Mrs. Hillary Clinton não abriu a boca. Foi o presidente do Irã, o doido, o primeiro a dizer que muito o alegrava ver a Tunísia liberta. Por quê?

No Egito, o futuro de Hosni Mubarak parece ainda mais perturbador. Bem pode acontecer de seu filho ser escolhido para sucedê-lo. Mas só há um califado no mundo muçulmano, e é a Síria. Os egípcios não querem o filho de Hosni. Não passa de empresário peso leve, que nada garante que consiga (sequer que tente), resgatar o Egito de sua própria corrupção.

O chefe da segurança de Hosni Mubarak, um certo Suleiman – hoje, muito doente – dificilmente poderá substituí-lo.

Por toda parte, em todo o Oriente Médio, estamos à espera de assistir à queda dos amigos dos EUA. No Egito, Mubarak deve estar decidindo para onde fugirá. No Líbano, os amigos dos EUA estão em colapso. É o fim do mundo dos Democratas no Oriente Médio árabe. Ninguém sabe o que acontecerá depois. Só a história, talvez, conheça as respostas