sábado, 27 de agosto de 2011

Os olhos de Fisk sobre a Líbia

A história do Iraque se repetirá na Líbia?

A natureza imprevisível da guerra na Líbia implica que as palavras raramente sobrevivam ao momento em que são escritas. O que Kadafi deverá estar pensando agora? Com sua visão enviesada e astuta do mundo líbio, ele poderia sobreviver para prosseguir um conflito civil-tribal e assim consumir os novos amigos líbios do Ocidente no pântano da guerra de guerrilhas e debilitar pouco a pouco a credibilidade do novo poder. O artigo é de Robert Fisk.

Condenados sempre a travar a guerra passada, voltamos a cometer o mesmo velho pecado na Líbia. Muammar Kadafi desaparece logo depois de prometer lutar até a morte? Não é a mesma coisa que fez Saddam Hussein? Quando Hussein desapareceu e as tropas estadunidenses sofreram suas primeiras baixas ante à insurgência iraquiana, em 2003, foi nos dito – pela boca do pró-cônsul estadunidense Paul Brenner, dos generais, dos diplomatas e dos decadentes especialistas da televisão – que os combatentes da resistência eram fanáticos, desesperados que não se davam conta de que a guerra havia terminado.

E se Kadafi e seu filho sabichão seguem em fuga – e se a violência não termina – quanto tempo vai levar para que outra vez nos apresentem aos desesperados que não entenderam que os rapazes de Bengasi estão no poder agora e que a guerra terminou? De fato, não menos do que 15 minutos – literalmente – depois de ter escrito as palavras acima (às 14 horas de quarta-feira), um repórter da Sky News reinventou a palavra “fanáticos” para definir os homens de Kadafi.

Inútil dizer que tudo é para o bem no melhor dos mundos possíveis, no que diz respeito ao Ocidente. Ninguém descarta o exército líbio e ninguém proscreve os kadafistas de um papel futuro no país. Ninguém cometerá os mesmos erros que cometemos no Iraque. E não há tropas em terra.

Nenhum zumbi encerrado em uma zona verde ocidental, cercada por muralhas, tenta dirigir o futuro da Líbia. “É assunto dos líbios” tornou-se o refrão de toda manifestação do Departamento de Estado/Escritório de Política Exterior/Quai d’Orsay. “Nós não temos nada a ver com isso”.

Mas, desde logo, a presença massiva de diplomatas ocidentais, representantes de magnatas do petróleo, mercenários ocidentais de altos salários e obscuros militares britânicos e francês – todos simulando ser conselheiros e não participantes – conforma a Zona Verde de Bengasi.

Pode ser que não estejam (ainda) rodeados de muralhas, mas o fato é que eles governam por meio dos distintos heróis e pilantras locais que se estabeleceram como senhores políticos. Podemos passar por cima do assassinato de seu próprio comandante – por alguma razão, ninguém menciona mais o nome de Abdul Fatá Yunes, apesar de ele ter sido liquidado há apenas um mês em Bengasi -, mas eles só podem sobreviver se permanecerem com o cordão umbilical preso ao Ocidente.

Esta guerra, é preciso dizer, não é a mesma que nossa perversa invasão do Iraque. A captura de Saddam só levou a resistência a multiplicar os ataques contra as forças ocidentais porque aqueles que, até então, se recusavam a participar da insurgência por medo de que os EUA voltassem a colocar Saddam no governo, perderam essas inibições. Na verdade, a prisão de Kadafi, junto com a de Saif, precipitaria sem dúvida o final da resistência dos seguidores do ditador. O verdadeiro temor do Ocidente neste momento – ainda que isso possa mudar à noite ou amanhã – é a possibilidade de que o autor do Livro Verde tenha conseguido chegar até Sirte, onde a lealdade tribal pode ser mais forte que o medo de uma força líbia respaldada pela OTAN.

Sirte – onde Kadafi, no início de sua ditadura, converteu os campos de petróleo da região no primeiro dividendo internacional para os investidores logo depois de sua revolução de 1969 – não é Tikrit. É a sede da primeira grande conferência da União Africana, a escassos 30 quilômetros da cidade natal de Kadafi: uma cidade e uma região que receberam enormes benefícios de seu governo de 41 anos. Strabo, o geógrafo grego, escreveu que os pontos dos assentamentos no deserto, ao sul de Sirte, converteram a Líbia em uma pele de leopardo. Kadafi deve ter gostado dessa metáfora.
Quase dois mil anos depois, Sirte era o ponto de união entre as colônias italianas de Tripolitania e Cirenaica.

Em Sirte os rebeldes foram derrotados pelas forças leais a Kadafi na guerra de seis meses travada este ano. Sem dúvida, teremos que mudar essas ridículas etiquetas: os que apoiam o pró-Ocidente Conselho Nacional de Transição terão que ser chamados de leais e os rebeldes partidários de Kadafi se tornarão os terroristas que poderão atacar a nossa amiga nova administração líbia. Seja como for, Sirte, cujos habitantes se supõe estejam negociando agora com os inimigos de Kadafi, poderia rapidamente aparecer entre as cidades mais interessantes da Líbia.

O que Kadafi deverá estar pensando agora? Acreditamos que está desesperado, mas, será que está mesmo? No passado, escolhemos muitos adjetivos para qualificá-lo: irascível, demente, perturbado, magnético, incansável, obstinado, estranho, estadista (Jack Straw descreveu-o assim), críptico, exótico, louco, idiossincrático e – em datas mais recentes – tirano, assassino e selvagem. Mas com sua visão enviesada e astuta do mundo líbio, Kadafi poderia sobreviver – para prosseguir um conflito civil-tribal e assim consumir os novos amigos líbios do Ocidente no pântano da guerra de guerrilhas – e debilitar pouco a pouco a credibilidade do novo poder do governo de transição.

A natureza imprevisível da guerra na Líbia implica que as palavras raramente sobrevivam ao momento em que são escritas. Talvez Kadafi esteja escondido em um túnel debaixo do hotel Rixos ou esteja relaxando em uma das casas de campo de Robert Mugabe. Duvido. Enquanto isso, a ninguém ocorre travar a guerra anterior a esta.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Grande Greve Geral no Chile


Chile vive segundo dia da greve geral de trabalhadores
A quinta greve nacional desde o retorno da democracia em 1990 reflete que há algo que resiste à mudança no Chile: a direita que criou o atual modelo econômico, político e social instaurado com a ajuda do ditador Augusto Pinochet nos 17 anos que durou sua ditadura. Mobilização reúne trabalhadores e estudantes: os dois atores que mais perderam com a sociedade de mercado instalada pela direita, aprofundada pelos governos da Concertação entre 1990 e 2010 e radicalizada pelo atual governo. A reportagem é de Christian Palma, direto de Santiago do Chile.

Christian Palma – Correspondente da Carta Maior em Santiago (@chripalma)

A quinta greve nacional desde o retorno da democracia em 1990 reflete que há algo que resiste à mudança no Chile: a direita que criou o atual modelo econômico, político e social instaurado com a ajuda do ditador Augusto Pinochet nos 17 anos que durou sua ditadura.

Na noite de terça-feira, 23 de agosto, na véspera dos dois dias da greve convocada pela Central Unitária de Trabalhadores (CUT), a principal organização sindical do país, que representa cerca de um milhão de trabalhadores, começou a primeira grande manifestação cidadã de rechaço ao governo e ao modelo vigente com um novo e massivo “panelaço”, onde milhões de pessoas saíram de seus lares com suas panelas para protestar simbolicamente – do mesmo modo como faziam contra Pinochet – contra a precariedade dos mais pobres devido ao neoliberalismo extremo chileno.

Esta nova grande ação social desdobrou-se em marchas em vários pontos de Santiago e de outras cidades chilenas, um sinal de apoio às demandas dos trabalhadores e dos estudantes que querem mudar a Constituição Política de 1980, elaborada pelos mesmos personagens que agora governam junto com Sebastian Piñera, o multimilionário presidente do Chile.

Não é para esquecer o fato de que irmão maior do mandatário chileno é José Piñera, o “pai” da legislação atual em matéria trabalhista, mineira e previdenciária que Pinochet aplicou sem consultar a população. A mobilização dos trabalhadores pretende mudar justamente o panorama deixado pelo primogênito dos Piñera, cujo modelo de sociedade enfrenta a resistência dos chilenos que apoiam o movimento dos trabalhadores que continua nesta quinta e ao qual se somaram os estudantes que defendem o fim do lucro na educação pública para que esta seja gratuita.

Trabalhadores e estudantes: os dois atores que mais perderam com a sociedade de mercado instalada pela direita, aprofundada pelos governos da Concertação entre 1990 e 2010 e radicalizada pelo atual governo que insiste em dar enormes subsídios aos bancos privados para créditos universitários, deixando milhões de jovens tão endividados que não conseguem superar esse problema devido aos baixos salários dos mercado de trabalho chileno.

O primeiro dia da greve nacional contou com a adesão de 80% dos trabalhadores públicos, segundo informou a Agrupação dos Empregados Fiscais (ANEF). Milhares de chilenos foram afetados pela paralisação, mas apoiaram a mobilização, saindo às ruas para apoiar os trabalhadores. A paralisação também é uma resposta da CUT à ação do atual governo de sucatear o Estado, demitindo funcionários públicos, flexibilizando a legislação trabalhista, permitindo práticas anti-sindicais e freando a negociação coletiva.

O fato de a paralisação não ter sido tão massiva no setor privado – segundo entidades empresariais, a greve foi inferior a 5% neste setor – deve-se ao fato de que a legislação trabalhista herdada do pinochetismo põe uma série de travas à formação de sindicatos nas empresas, além de permitir a substituição de trabalhadores em greves. Esta é outra das mudanças estruturais defendidas pelo sindicalismo.

A resposta do governo à greve foi a de sempre: deslegitimar os movimentos sociais, assinalando que a greve custará cerca de US$ 400 milhões à economia local. Se consideramos a má distribuição de renda no país, onde 94% da população recebe apenas 6% da riqueza, o resultado real é que a grande maioria dos chilenos só perde US$ 1,5 pela paralisação de atividades.

O pior de tudo é que o presidente Piñera não apresentou nenhum argumento para responder às demandas de mudanças feitas pelos trabalhadores, seguindo o mesmo roteiro executado com os estudantes: realizar outras atividades midiáticas em meio à efervescência social, como almoçar no Palácio La Moneda com os “twiteiros” chilenos mais influentes desta rede social.

Enquanto o governo afirma que a paralisação foi um fracasso, milhares de trabalhadores, estudantes e pessoas comuns saem às ruas para rechaçar o modelo. Também se registraram barricadas de fogo, assim como ocorria nos tempos em que os militares governavam o Chile. As ruas do centro de Santiago ficaram vazias ao entardecer, enquanto começavam os panelaços.

Outro dado a destacar é que, ao contrário das greves realizadas nos 20 anos de governos de centro-esquerda da Concertação, a sociedade chilena aprofundou o descontentamento nas ruas como nunca havia se visto desde 1990. Desta vez, as demandas por melhores salários, menos abusos empresariais e medidas para diminuir a desigualdade de renda são lideradas pela sociedade civil e não pela lógica da elite política.

No Palácio de La Monde os vidros são duplos: o governo não quer escutar o massivo questionamento social ao modelo econômico que a direita insiste em manter.

Nesta quinta, para o segundo dia da greve, espera-se um ato massivo em frente da sede da CUT, que se encontra a menos de 50 metros de La Moneda, em plena Alameda, o que promete uma intensa jornada, repetindo o clima de descontentamento que atingiu o governo de Piñera.

Tradução: Katarina Peixoto

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A lógica do caos


Nossos noticiários econômicos se prendem à divulgação de dados recentes sobre desemprego, inflação, dívida, dow-jones, que hora apontam para recuperação, hora para a catástrofe. Tudo bem, jornalistas têm a tendência de serem dramáticos e a privilegiarem a informação "fresquinha", entretanto isso os distancia do debate histórico e sistêmico. O imediatismo informativo é desculpa para que não discutam, dessa forma, os fundamentos, as ideologias e a transformação da economia mundial. Não se aprofundam nas teorias e no debate de opiniões, em geral sempre interpretando os fatos por meio de uma única ótica. O texto abaixo discute brevemente o futuro econômico sombrio que temos pela frente, e também aponta rapidamente um caminho a ser seguido. Que as forças econômicas do futuro estejam submetidos a uma democracia real.

Sim, pois o meu maior medo é que estes desastres econômicos levem futuramente a mais mentiras, mais guerras e mais mortes.

Paz
Alexei





Theotonio dos Santos

Blog de Theotonio dos Santos

Venho discutindo com Immanuel (Wallerstein) e um grupo de colegas há muitos anos sobre esta situação que prevíamos, baseados não somente nos ciclos longos de Kondratiev. Temos contudo que ter claro alguns pontos que ainda resultam polêmicos, mesmo dentro do nosso grupo de estudiosos do sistema mundial. É necessário destacar duas coisas.

Primeiro, não estamos numa fase desfavorável do ciclo longo, estamos no meio de um período de crescimento. Isto explica que apesar das dimensões colossais da crise da especulação financeira internacional, continua havendo crescimento da economia mundial. Este ciclo positivo deverá esgotar-se em aproximadamente 10 anos quando deveremos substituir o atual padrão tecnológico mundial por um novo paradigma cuja introdução exigirá uma destruição massiva de grande parte da estrutura econômica mundial e das várias estruturas nacionais. Neste momento, a crise atual parecerá uma brincadeira e a idéia de caos que maneja Immanuel se aproximará bastante da realidade deste novo período.

Segundo, a desproporcional intervenção fiscal do governo estadunidense para salvar o sistema financeiro atual é similar à intervenção do Japão no começo da década de 1990 para salvar os absolutamente inúteis bancos japoneses. Ela é pior ainda porque os Estados Unidos, além de transferir recursos colossais para o sistema financeiro quase tão inútil como o japonês, tem gastos insustentáveis como as guerras sucessivas e como as "prevenções" de guerras megalomaníacas que pretendem submeter todo o planeta ao seu domínio.

Logo, os Estados Unidos não podem mais situar-se como o grande "puxador da economia mundial", como vem ocorrendo já nos últimos 10 anos. Deverá ter um crescimento medíocre junto com a Europa. Apesar de que esta poderia ter melhor situação se assumisse seu destino euro-asiático e abrisse suas economias,sociedades e cultura para uma audaz aproximação com a Rússia, a China e a Índia. E ao mesmo tempo, apoiasse o sul da Europa para ligar-se fortemente com a Turquia, com todo o Oriente Médio, a África e a América Latina. Abaixo o Atlantismo que destrói a Europa!

Quanto aos chineses, não têm outro caminho que usar seus dólares e mesmo seus títulos da dívida norteamericana para adquirir empresas em toda a economia ocidental utilizando os fundos soberanos que já têm e os novos que pensam criar. Seu destino é converter-se na principal força econômica ( e financeira) do capitalismo mundial.

Valha capacidade de teoria econômica não ortodoxa para compreender estas realidades e atuar sobre elas. Feliz ou infelizmente o capitalismo de estado da China e de grande parte do chamado Terceiro Mundo deverão dirigir a economia mundial a partir de um período muito curto. Estamos em plena transição para esta nova fase.

Lutemos para que esse capitalismo de Estado esteja submetido a forças democráticas (isto é, as maiorias sociais e não as "elites" antidemocráticas ocidentais, apesar de seus discursos liberais).

Lutemos para encontrar regimes políticos que permitam este diálogo constante entre os Estados e os povos. As formas de representação eleitoral usadas no Ocidente estão em plena degradação com um descontentamento de massas colossal, pois os grandes movimentos de massa do momento não são as rebeliões árabes e sim a ocupação das ruas européias pelos grandes protestos populares.

Não estranhem o fato de que as notícias monitoradas pela grande imprensa internacional não lhes deixem visualizar esta imagem. Há toda uma nova agenda a ser desenvolvida nesta nova situação histórica. A América Latina está fazendo um esforço muito positivo nesta direção. Ela inclui uma drástica reforma dos meios de comunicação e uma maior comunicação Sul/Sul. Temos que pensar com energia, audácia e criatividade. Inmanuel Wallerstein é um dos poucos que está nesta trincheira.

(1) Wallerstein: Se vienen años de incertidumbre y caos mundial

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Distúrbios no mundo "civilizado"

O artigo de hoje é da ativista canadense Naomi Klein, autora de, entre outros filmes, "A doutrina do Choque" (disponibilizei abaixo diretamente do youtube uma versão legendada do filme). Sua tese mais famosa é que governos elitistas e interesseiros aproveitam períodos de crise e de desorientação para empurrar rapidamente medidas anti-populares sobre as pessoas. A linha de argumentação da autora é fundamentada em inúmeros eventos históricos. Precisamos estar atento pois o medo da violência é uma estratégia tradicional para que se roubem os direitos dos cidadãos.

Paz
Alexei



Os saqueadores do dia contra os saqueadores da noite

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saques são contagiosos. Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. O artigo é de Naomi Klein.

Leio comparações entre os tumultos em Londres e em outras cidades europeias – vitrines quebradas em Atenas, carros incendiados em Paris. E há paralelos, sem dúvida: uma fagulha lançada pela violência policial, um geração que se sente esquecida. Esses eventos foram marcados por destruição em massa, com poucos saques.

Mas tem havido saques em massa em anos recentes e acho que temos de falar também deles. Houve em Bagdá, logo depois da invasão norte-americana – um frenesi de destruição e saques que esvaziou bibliotecas e museus. Também em fábricas. Em 2004, visitei uma fábrica de refrigeradores. Os trabalhadores tinham saqueado tudo que havia ali de aproveitável, empilharam e incendiaram. No armazém ainda havia uma escultura gigantesca de placas de metal retorcido.

Naquela ocasião, os noticiários entenderam que teria sido saque altamente político. Diziam que aquilo exatamente seria o que aconteceria sempre que um governo não é considerado legítimo pelos cidadãos. Depois de ter assistido durante tanto tempo ao espetáculo de Saddam e filhos roubarem o que conseguissem e de quem conseguissem roubar, os iraquianos comuns sentir-se-iam, então, merecedores do direito de também roubar um pouco. Mas Londres não é Bagdá e o primeiro-ministro britânico David Cameron não é Saddam. Assim sendo, nada haveria a aprender dos saques em Londres.

Mas há exemplos no mundo democrático. A Argentina, em 2001. A economia em queda livre e milhares de pessoas vivendo em periferias destruídas (que haviam sido prósperas zonas fabris, antes da era neoliberal) invadiram e saquearam supermercados de propriedade de empresas estrangeiras. Saíam empurrando carrinhos abarrotados dos produtos que perderam condições para comprar – roupas, aparelhos eletrônicos, carne. O governo implantou “estado de sítio” para restaurar a ordem; a população não gostou e derrubou o governo.

Na Argentina, o episódio ficou conhecido como El Saqueo – o saque[1]. É exemplo politicamente significativo, porque a palavra aplica-se, na Argentina, também ao que as elites do país fizeram, ao vender patrimônio da nação à guisa de ‘privatizar’, em negócios de corrupção flagrante e enviando para o exterior o produto das ‘privatizações’, para, em seguida, cobrar do povo obediência a um brutal pacote de ‘austeridade’. Os argentinos entenderam que o saque dos supermercados jamais teria acontecido sem o saque anterior, muito maior, do próprio país; e que os reais gângsteres estavam no governo.

Mas a Inglaterra não é a América Latina e, na Inglaterra, não há tumultos políticos – ou, pelo menos, é o que nunca se cansam de repetir. Os jovens que devastaram ruas em Londres são crianças sem lei, que se aproveitam de uma situação, para roubar o que não lhes pertence. E a sociedade britânica, diz-nos Cameron, tem ojeriza a esse tipo de gente mal comportada.

Disse, e com ar sério. Como se os ‘resgates’ massivos dos bancos jamais tivessem acontecido, seguidos imediatamente do pagamento de escandalosos bônus recordes aos altos executivos. Depois, as reuniões de emergência do G-8 e do G-20, mas quais os líderes decidiram, coletivamente, nada fazer para punir os banqueiros por esse ou aquele crime, além de também nada fazer para impedir que crises semelhantes voltem a acontecer. Em vez disso, cada um daqueles líderes nacionais voltou aos seus respectivos países para impor sacrifícios ainda maiores aos mais vulneráveis. Como? A receita é sempre a mesma: despedir trabalhadores do setor público, fazer dos professores bodes expiatórios, cancelar acordos previamente firmados com sindicatos, aumentar as mensalidades escolares, promover rápida privatização de patrimônio público e reduzir aposentadorias e pensões. – Cada um que prepare a mistura específica para o país onde viva. E quem lá está, na televisão, pontificando sobre a necessidade de abrir mãos desses “benefícios”? Os banqueiros e gerentes de empresas de hedge-fund, claro.

É o Saqueo global, tempo de saques imensos! Alimentados por um sentido patológico de ‘direitos adquiridos’ pelos ricos, o grande saque global está em andamento à luz do dia, como se nada houvesse a esconder. Mas há, sim, temores ocultados. No início de julho, o Wall Street Journal, citando pesquisa recente, noticiava que 94% dos milionários temiam “a violência nas ruas”. Aí, afinal, um medo compreensível.

Claro que os tumultos de rua em Londres não foram protesto político. Mas o pessoal dos saques noturnos com certeza absoluta sabe que suas elites passaram o dia dedicadas aos saques diários. Saqueos são contagiosos.

Os Conservadores acertam quando dizem que os tumultos nada têm a ver com os cortes. Mas, sim, têm muito a ver com os cortados que os cortes cortaram. Presos longe, numa subclasse que infla dia a dia e sem as vias de escape que antes havia – um emprego no sindicato, educação barata e de boa qualidade –, eles estão sendo descartados. Os cortes são um sinal: dizem a todos os setores da sociedade que os pobres estão fixados onde estão – como dizem também aos imigrantes e refugiados impedidos de ultrapassar fronteiras nacionais cada dia mais militarizadas e fechadas.

A resposta de David Cameron às agitações de rua é tornar literal e completo o descarte dos mais pobres: fim dos abrigos públicos, ameaças de censura e corte das ferramentas de comunicação social e penas de prisão absolutamente inadmissíveis; uma mulher foi condenada a cinco meses de cadeia, por ter recebido um short roubado [e hoje, 17/8/2011, dois homens foram condenados a quatro anos de prisão, por incitarem tumultos pela internet, apesar de não se ter provado que sua ‘incitação’ levou a alguma consequência (NTs, com informações de Guardian em http://www.guardian.co.uk/uk/2011/aug/17/facebook-cases-criticism-riot-sentences)]. Mais uma vez a mensagem é clara contra os pobres que incomodam: sumam. E sumam em silêncio.

Na reunião “de austeridade” do G-20 em Toronto, os protestos viraram tumultos e vários carros da polícia foram incendiados. Nada que se compare a Londres 2011, mas o suficiente para deixar-nos, os canadenses, muito chocados. A grande discussão naquela ocasião era que o governo havia consumido $675 milhões de dólares na “segurança” da reunião (e ninguém conseguia sequer impedir o incêndio de carros da polícia). Naquele momento, muitos dissemos que o novo e caríssimo novo armamento que a polícia havia comprado – canhões de água, canhões de som, granadas de gás lacrimogêneo e munição revestida de borracha – não havia sido comprado para ser usado contra os manifestantes nas ruas; que, no longo prazo, aquele equipamento seria usado para disciplinar os pobres que, na nova era de ‘austeridade’, seriam empurrados para a perigosa posição de pouco terem a perder.

Isso, precisamente, é o que David Cameron absolutamente não entende: é impossível cortar orçamentos militares ou policiais, no mesmo momento em que você corta todos os gastos públicos. Porque, se o estado rouba os cidadãos, tirando deles o pouco que ainda têm, pensando em proteger os interesses dos que acumulam muito mais do que qualquer ser humano precisa para viver, é claro que deve esperar o troco ou, pelo menos, deve esperar resistência – seja a resistência de protestos organizados, seja a resistência das ondas de saques. Não é propriamente problema político: é problema matemático, físico.

[1] Ver, sobre esse período, Memoria del Saqueo, filme de Fernando “Pino” Solanas, Argentina, 2004. Pode ser baixado de http://docverdade.blogspot.com/2009/03/memorias-do-saque-memoria-del-saqueo.html [NTs].

Fonte:
http://www.thenation.com/article/162809/daylight-robbery-meet-nighttime-robbery?rel=emailNation

Tradução: Coletivo Vila Vudu

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mentiras, drogas e assassinatos



Os noticiários se cansaram da guerra do Afeganistão, mas o desastre segue, dia após dia, ditando a vida e a morte nestas regiões. Depois de seguidos massacres de inocentes, a grande notícia recente foi a morte de alguém que de inocente não tinha nada. No dia 12 de julho foi brutalmente assassinado com dois tiros na cabeça, um certo Ahmad Ali Karzai (foto1), o meio irmão do Hamid Karzai (foto2 com Bush). Se você nunca ouviu falar de Ahmad Ali Karzai, não se culpe. A culpa pertence à cobertura pseudo-jornalística dessa guerra mais interessada em dar voz a versões oficiais mentirosas que realmente informar. Enquanto Hamid é o atual "presidente" do país, mantido no poder graças a fraudes eleitorais internacionalmente reconhecidas (e rapidamente esquecidas), o melhor amigo de Washington na ásia central e personagem frequente em recepções na casa branca, o seu irmão Ahmad, menos famoso mas não menos poderoso, era um dos maiores traficantes de heroína e ópio do mundo, e agente da CIA.

Era.

Já era.

Enquanto isso pessoas continuam morrendo numa guerra cujo motivo se torna cada vez mais difícil de explicar, mesmo para pessoas extremamente acostumadas a mentir.

A reportagem abaixo é só uma gota no oceano de absurdos da ásia central.

Paz
Alexei


Pepe Escobar: Os Talibã acertam terrível martelada na OTAN

por Pepe Escobar, Asia Times Online

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

Jornalistas e jornais de repetição em todo o mundo, de Washington a Bruxelas e Cabul, têm pela frente muitas noites em claro. A opinião pública mundial tem sido manobrada, a golpes de ‘choque e pavor’, para crer na quimera de que os EUA e a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) estariam ‘vencendo’ a guerra-pacote de Obama no Af-Pak. OK. Agora, então, vamos aos fatos.

Imediatamente depois que o governo dos EUA decidiu “suspender” a ajuda de 800 milhões de dólares ao exército do Paquistão, o ministro da Defesa do Paquistão, Ahmed Mukhtar, disse ao canal local da Express TV, que “Se as coisas ficarem realmente difíceis, retiramos todas as nossas forças” – sugerindo que desapareceriam os soldados de Islamabad que combatem os guerrilheiros da maioria pashtun nas áreas tribais.

Mukhtar não poderia ser mais claro: “Se os EUA recusam-se a nos pagar, OK. Não temos como manter nossos soldados nas montanhas por período tão longo.”

É praticamente prova fotográfica de que, mais uma vez, o exército paquistanês joga – relutantemente – o jogo do contraterrorismo/contraguerrilha de Washington nas áreas tribais. Por mais que Islamabad tema o nacionalismo pashtun, o exército sabe que tem de andar com cautela extrema, ou terá pela frente rebelião tribal em massa dos pashtuns, o que clamará aos quatro ventos o supremo tabu: a consolidação de um Pashtunistão, que destruirá o Paquistão que conhecemos hoje.

Cai o senhor-da-guerra

E houve também o presidente Hamid Karzai, o fantoche que, reza o folclore local, mal controla o próprio trono em Kabul, falando em conferência de imprensa ao lado do libertador da Líbia, o neonapoleônico presidente Nicolas Sarkozy da França, que visitava o Afeganistão.

Karzai disse: “Dentro de cada lar do povo afegão todos sofremos a mesma dor. Nossa esperança é que, se Deus quiser, chegarão ao fim a dor e o sofrimento do povo afegão e se implementarão a paz e a segurança.”

Mas é discutível que muitos afegãos sintam muita dor e sofram muito ao serem informados do assassinato de Ahmad Wali Karzai, meio-irmão do presidente, grande traficante de drogas, nome sempre presente na folha de pagamentos da CIA-EUA e o maior agente de negócios na alta cúpula do governo em Kandahar, onde preside o conselho provincial.

Considerando que os Talibã controlam atualmente cerca de 70% do Afeganistão, o assassinato vale troféu de ouro. Os Talibã já se declararam devidamente responsáveis, falando por seu porta-voz Usuf Ahmadi: “Foi das nossas mais importantes realizações desde o início das operações de primavera. Recentemente, Sardar Mohammad recebeu a incumbência de matá-lo. Sardar Mohammad é nosso mártir.”

O contradiscurso oficial em Kandahar insiste em que Sardar Mohammad, comandante em que Karzai confiava, nascidos ambos na mesma tribo Popolzai, teria matado Ahmed Wali com dois tiros na cabeça “por questões de drogas” e motivos pessoais.

Mas os Talibã já estão vencendo a disputa pela opinião pública. Desde a primavera de 2010, os Talibã já conseguiram assassinar o chefe da polícia provincial de Kandahar, o vice-governador, o chefe de distrito de Arghandab e o vice-prefeito de Kandahar City.

Agora, se livraram de Ahmed Wali Karzai, o mais importante personagem pró-Washington, não só de Kandahar mas de todo o sul do Afeganistão – onde está OTAN, sem outra tarefa além de esmagar os Talibã no seu próprio lar espiritual e território preferido. O assassinato de Ahmed Wali reduz a cacos a narrativa segundo a qual “a OTAN está vencendo”.

O rei de Kandahar

Passei uma longa tarde com Ahmad Wali em Quetta, capital da província do Baloquistão no Paquistão, quando os EUA bombardeavam os Talibã no outono de 2001 – semanas antes de que Ahmad e seu meio irmão se convertessem, de “vendedores de kebab” (como se ouvia pelas ruas), em peso-pesados da política.

Ahmad Wali já trabalhava para a CIA – naquele momento, os EUA estavam ocupadíssimos fazendo Hamid Karzai desembarcar de paraquedas no topo da política afegã – e era grande contrabandista de ópio, além de líder tribal e personalidade muito mais assertiva que seu meio-irmão.

Ao longo dos anos 2000s, Ahmad Wali conservou todas essas funções e papéis, além de ser dono de hotéis, terras, imóveis e até de uma loja de revenda da Toyota, mas, sobretudo, trabalhava para “conter” Kandahar, sempre pesadamente talibanizada, como comandante da “Kandahar Strike Force” – unidade privada paramilitar, linha duríssima, que auxiliava as Forças Especiais dos EUA e a CIA no serviço de “assassinatos predeterminados” [ing. targeted assassinations] dos altos comandantes Talibã.

Era o governador de facto, popularmente conhecido como “Rei de Kandahar” – muito mais poderoso que o governador e que o conselho provincial desdentados.

A lição que tadjiques, uzbeques, hazaras e pashtuns seculares extraem hoje do assassinato de Ahmad Wali é que o governo Karzai não passa de saco de gatos (OK, a maioria dos afegãos já sabia) – incapaz de proteger, sequer, o mais poderoso dos Karzais. Quanto à ficção de que a OTAN estaria conquistando corações e mentes afegãs e conseguindo que os afegãos caiam de amores pelo governo central em Kabul… Quem quiser, que tente contar essa a algum daqueles rostos de pedra, no Hindu Kush.
O mesmo vale para a “vitória” da OTAN no Afeganistão.

Quanto à “vitória” dos EUA nas áreas tribais do Paquistão, basta considerar o que pensam o poderoso chefe do exército general Ashfaq Parvez Kiani – queridinho do Pentágono – e o chefe do serviço secreto paquistanês (Inter-Services Intelligence, ISI), tenente-general Ahmed Shuja Pasha. Por porta-vozes e subalternos já disseram que se podem safar perfeitamente bem sem os 800 milhões de dólares de Washington. E também podem pedir ajuda à China, “amiga de sempre, faça chuva faça sol”.

Segundo o coronel David Lapan, porta-voz do Pentágono, Islamabad pode facilmente pôr as mãos nos 800 milhões: basta que emita muitos e muitos vistos de entrada no país para, essencialmente, espiões norte-americanos, e reinstitua o treinamento em larga escala em táticas de contraterrorismo e contraguerrilha, de soldados paquistaneses. Islamabad – que já enfrenta a guerra dos aviões-robôs-drones dos EUA nas áreas tribais – não está interessada.

“Vencedor” nesse caso, realmente, só a al-Qaeda, que usou os Talibã paquistaneses num confronto com o exército paquistanês nas áreas tribais como tática diversionista – ao mesmo tempo em que trabalha para disseminar sua agenda pró-califato na direção da Ásia Central.

Mas… Como?! Os EUA não estavam “vencendo” a al-Qaeda? Foi, pelo menos, o que disse o general David Petraeus – que está agora de mudança, de principal comandante no Afeganistão, para a direção-geral da CIA: “Causamos danos enormes à al-Qaeda nas áreas tribais de administração federal… E há em prospectiva a possibilidade de derrota realmente estratégica” [para a al-Qaeda].

Quer dizer… Não, não há. A menos que você bombardeie as áreas tribais, com aviões-robôs-drones, até que por lá não reste um único ser vivo, até o Juízo Final.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Crepúsculo para o Cidadão Murdoch?



Rupert Murdoch é a própria figura do magnata midiático global supremo. Seu império de jornais, emissoras, estúdios, tv a cabo, e mídia faz dele o Roberto Marinho dos países de lingua inglesa (na imagem vemos os logos de apenas um pedaço do seu império midiático). Há não muito tempo ele já foi o herói dos heróis dos falcões da guerra, quando colocou suas centenas de empresas jornalísticas para trabalhar na promoção da guerra do Iraque. Sua pauta conservadora o faz peça chave na expansão do militarismo petroleiro desta última década, por isso, definitivamente, esse homem não merece a pena de ninguém.

Hoje, um pouco menos temido e poderoso, está mergulhado num escândalo que praticamente paraliza a inglaterra, mas que pouco move de tinta aqui na nossa mídia tupiniquim. Normalmente qualquer assunto britânico repercute fortemente por aqui. Nesse caso, porém, as notas, quando existem, são curtas e pouco explicativas. O fato, porém, é que Murdoch está seriamente implicado.

A verdade está vindo a tona, e os seus métodos jornalisticos coercitivos e invasivos se transformaram em uma onda de indignação e revolta contra o líder desse império.

Que toda mentira caia por terra.


Paz
Alexei.

PS: A reportagem abaixo é do Independent



Líderes políticos britânicos unidos contra Rupert Murdoch

Começaram a aparecer sinais de que os problemas da empresa News Corp na Grã-Bretanha podem contaminar outras partes do negócio. Em depoimento aos deputados, dois altos oficiais de Polícia acusaram a empresa de deliberadamente encobrir provas de que muitos telefones estavam sendo grampeados e invadidos, durante o tempo em que a News International foi dirigida por Les Hinton – braço direito de Murdoch há décadas, que hoje é diretor de Dow Jones nos EUA.

Os três principais partidos políticos se unirão hoje, em ataque sem precedentes contra o homem que os mesmos partidos vivem, há décadas, de cortejar incansavelmente: Rupert Murdoch. Os líderes dos três principais partidos políticos britânicos instruíram seus deputados para que votem a favor de uma moção que exige que Murdoch, depois do escândalo dos telefones grampeados, desista da proposta que apresentou para comprar a BSkyB.

Esse show de pensamento único é consequência de intervenção dramática de David Cameron. A decisão foi tomada depois que Cameron percebeu que poderia perder a votação na Casa dos Comuns para a oposição (partidos Trabalhista e Liberal Democrata). Dizia-se ontem que o clima, na residência do primeiro-ministro em Downing Street, era “sombrio”.

A moção – que agora será garantidamente aprovada por vasta maioria – aumenta muito significativamente a pressão sobre a empresa News Corp para que desista completamente de tentar comprar a BSkyB – num momento em que não param de surgir denúncias de crimes e erros de má administração na News International, subsidiária britânica da News Corp, de Murdoch.

As ações da BSkyB caíram mais 3%, depois que a City concluiu que a pressão da opinião pública torna o negócio praticamente impossível, pelo menos nesse momento. Ao longo do dia de ontem, o affair teve os seguintes desdobramentos:

* Dois dos mais graduados comandantes da Polícia britânica acusaram a empresa News International de mentir e prevaricar no curso do primeiro inquérito policial;

* A Scotland Yard admitiu que, até agora, só notificou 170 das pessoas cujos celulares podem ter sido grampeados, de um total de 4.000 nomes que aparecem nos arquivos de Glenn Mulcaire;

* Uma comissão da Câmara dos Comuns convocou Rupert e James Murdoch a comparecer pessoalmente ao Parlamento na próxima 3ª-feira, com Rebekah Brooks, para serem interrogados publicamente pelos deputados sobre o escândalo; e

* David Cameron, Ed Miliband e Nick Clegg reuniram-se privadamente para discutir os termos de referência para uma investigação pública sobre o escândalo.

Ficou acertado entre os três que Cameron anunciará hoje a instauração de comissão de inquérito, comandada por juiz especial, para tratar de dois tópicos: o fracasso da Polícia (que não investigou devidamente as denúncias de invasão de telefones celulares) e temas mais amplos da ética na mídia. As testemunhas a serem ouvidas nessa comissão falarão sob juramento. Espera-se que o primeiro-ministro, no mesmo ato, nomeie o juiz que presidirá os trabalhos da comissão de inquérito.

(...) Uma fonte do governo disse que, depois de aprovada a moção conjunta, a empresa News Corp só poderá comprar 100% das ações da BSkyB, se vender os três jornais que ainda controla – The Sun, The Times e The Sunday Times. “A moção conjunta altera todo o jogo” – disse.

(...) Em New York, os altos executivos da News Corp estão sendo pressionados a separar-se dos problemas atuais na Grã-Bretanha, para que a empresa possa concentrar-se nas partes do negócio que têm maior potencial de crescimento: a televisão a cabo nos EUA.

Na tentativa de tranquilizar os acionistas, Murdoch anunciou que destinará 5 bilhões de dólares dos lucros da News Corp para ‘segurar’ o preço das ações. A companhia informou que o dinheiro seria gasto ao longo dos próximos 12 meses para recomprar as ações da empresa – medida que reduz o risco de a cotação despencar. Com essa medida, Murdoch espera obter a simpatia dos investidores, enquanto tenta encontrar meio para impedir que o escândalo britânico contamine todo o império de $45 bilhões.

Murdoch sabe que, se nada fizer, os acionistas poderão concluir que ele próprio e a família, que controla o negócio, estariam ‘segurando’ o dinheiro investido. O próprio Murdoch e vários diretores já são alvo de processo movido por acionistas rebeldes, que alegam que os executivos da empresa puseram os interesses da família acima do interesse dos demais investidores.

A jogada de Murdoch parece estar dando certo. O preço das ações estabilizou-se e vários grandes acionistas já manifestaram apoio aos Murdochs. O príncipe saudita Alwaleed bin Talal – principal acionista da News Corp, depois da família Murdoch – deu várias entrevistas, dizendo que o fechamento do jornal News of the World bastava, para encerrar o escândalo. E que a empresa News Corp continuava sólida. “A News Corp é muito mais que um jornal” – disse o príncipe.

Mas ontem começaram a aparecer sinais de que os problemas da empresa News Corp na Grã-Bretanha podem contaminar outras partes do negócio. Em depoimento aos deputados, dois altos oficiais de Polícia acusaram a empresa de deliberadamente encobrir provas de que muitos telefones estavam sendo grampeados e invadidos, durante o tempo em que a News International foi dirigida por Les Hinton – braço direito de Murdoch há décadas, que hoje é diretor de Dow Jones nos EUA. É provável que também seja convocado para prestar depoimento no inquérito público, sobre se teria autorizado ou não, que seus jornalistas sonegassem provas e produzissem as provas falsas que foram entregues à Polícia.

Tradução: Vila Vudu

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Eleições na Tailândia - Vitória histórica dos camisas vermelhas


Neste último domingo, dia 3, aconteceram as tão esperadas e adiadas eleições tailandesas e, contabilizados os votos, os "camisas vermelhas" saíram vitoriosos.

Na verdade, a notícia não é tão novidade assim, afinal de contas, é a quinta eleição seguida a ser vencida pelos camisas vermelhas na Tailândia. Esta última eleição, porém, tem um significado muito especial, pois, apesar das seguidas maiorias vermelhas, há anos que o país vem sendo governado pelo grupo que perdeu todas essas eleições: os chamados "camisas amarelas", ligados à elite urbana. Após as últimas duas vitórias vermelhas terem sido revertidas à força por golpes militares, - golpes estes devidamente protegidos pelo silêncio aprovador dos governos ocidentais - havia muita expectativa ao redor do retorno dos camisas vermelhas ao poder pela força pacífica e legitimadora do voto. Com a direita local cansada de tentar manter o poder à força, muitos acreditam que esta eleição marcará o início de um processo de reconciliação nacional e, quem sabe, normalização democrática.

Depois de uma longa novela, que incluiu até uma patética tentativa de invasão ao país vizinho, (leia mais aqui) a vitória nas urnas se consolidou de forma acachapante. A coalizão dos camisas vermelhas juntou, ao final da apuração, 299 cadeiras no parlamento. A direita "camisa amarela" conseguiu pouco mais que a metade disso (159), e o exército, que há pouco mais de um ano, assassinou 90 manifestantes nas ruas de Bangcoc, já anunciou que vai respeitar os resultados - como se isso não fosse o mínimo que se espera das forças armadas (pobre do país onde aínda é necessário perguntar ao seu próprio exército se ele respeitará as eleições)


O silêncio da mídia comercial ocidental neste assunto depõe contra ela própria.

Agora nos resta torcer para que, dessa vez, a voz do povo seja respeitada e as armas permaneçam fora do jogo político.

A reportagem abaixo é da BBC

Paz
Alexei


Camisas vermelhas saem vitoriosos na Tailândia

O partido opositor Puea Thai, ligado ao líder deposto Thaksin Shinawatra, foi o vencedor das eleições gerais da Tailândia, de acordo com resultados parciais divulgados neste domingo. O atual primeiro-ministro, Abhisit Vejjajiva, concedeu a vitória à rival Yingluck Shinawatra, irmã de Thaksin.

"Está claro que o Puea Thai venceu a eleição, e o Partido Democrata assume a derrota", afirmou Abhisit em pronunciamento na televisão estatal. "Quero ver unidade e reconciliação. O Partido Democrata está pronto para estar na oposição".

Com a vitória do Puea Thai, Yingluck torna-se a primeira mulher a ocupar o cargo de premiê da Tailândia. Com 92% dos votos apurados, o partido conquistou 260 das 500 cadeiras do Parlamento e o direito de formar governo.

Yingluck foi cuidadosa em seu pronunciamento e disse que vai esperar o resultado final, que deve ser divulgado ainda neste domingo. "Não vou dizer que ganhamos, mas que as pessoas nos deram uma chance e que há muito trabalho pela frente", afirmou.

O ex-líder Thaksin Shinawatra, que vive em autoexílio em Dubai, afirmou que o povo tailandês votou por mudança. "Eles querem ver reconciliação", disse. "Todos os partidos devem respeitar as decisões dos eleitores."

Thaksin foi deposto por um golpe militar em 2006. Questionado se voltaria para a Tailândia agora que sua irmã assumirá o cargo de premiê, ele disse não ter pressa. "Quero que a reconciliação realmente aconteça", afirmou. "Quero ser parte da solução, não do problema."

Os últimos anos têm sido de tensão entre os dois grupos políticos. No ano passado, manifestantes fecharam partes de Bangcoc por dois meses na tentativa de forçar o governo a renunciar. O Exército foi às ruas e confrontos deixaram 91 mortos.

Com BBC